Para falar de gente, de seres humanos, do bicho humano perfectível, apesar de tudo. Do Animal sapiens, mas a partir de agora do "Homo spiritualis", com sua fé e religiosidade muitas vezes confusa, gerando preconceitos, discriminações.

17
Nov 12

Além dos cafezais

Agora sei que consigo partir

Já me despedi da rosa amarela, da branca margarida,

do amor perdido em meio aos cafezais.

Deixo contigo o velho cantil, a boina vermelha,

e algumas gotas

do meu querer derramado no chão.

O sonho eu o reparto ao meio

Mesmo assim ele ainda fica inteiro

porque sonhos sangram, sonhos movem,

sonhos se renovam,

viram prisão ou jardim

e entre prisões e jardins

nascem brotos de liberdade.

 

Deusa Ilário, AP-Brasil

 
publicado por animalsapiens às 10:32

05
Nov 12

Resenha: Memorial do Desterro 

Ana Claudia Vargas
“A noção do tempo a escoar no próprio tempo, quando todos os dias começam no mesmo dia que nunca acaba” . (Lazaro Barreto)



 
Foto: Paulo Santos


Como seria contar a história de um lugar a partir das vivências das pessoas desse lugar? Como seria recriar o infindável mosaico de memórias e histórias que compõem a vida de todos nós?
Enquanto vivemos nosso dia-a-dia, não temos como pensar que estamos construindo histórias que depois poderão servir para formar o intrincado quebra cabeças de toda uma época.
Pois agora imagine um livro que conte a ‘história’ de um lugar a partir da vivência dos anônimos, daqueles que são a maioria, daqueles trabalham e constroem suas vidas anonimamente e que nunca terão seus nomes escritos nas pomposas letras dos livros que analisam o passado ‘de cima para baixo’.
Em tempos de celebridades instantâneas, do ficar famoso sem nenhum esforço ou mérito, de mediocridade ululante – parodiando o Nelson Rodrigues – encontrar um livro despretensioso (mas não superficial, muito pelo contrário) que narra a história de um lugar a partir das pessoas simples – seus afazeres, suas sabedorias, tristezas e alegrias -  é realmente um achado.
Um achado precioso: é assim esse livro “Memorial do Desterro”, do escritor mineiro Lázaro Barreto.
É dele que vou falar hoje na sessão Geraes de Minas porque a proposta aqui é também a de resenhar livros pouco conhecidos sobre a história das Minas Gerais.
O livro


O autor do prefácio Frei Bernardino Leers , de forma exata, escreve: “Muito livro de história é macro-história, virtudes e defeitos (...) de governantes, generais e nações (...). São como fotografias coloridas a distância, de panoramas grandiosos em que os detalhes desaparecem entre os bastidores gigantescos das montanhas e vales (...)”.
Pois nesse Memorial, o autor ilumina as reentrâncias dos vales e montanhas que contornam a região do Desterro – hoje o antigo arraial se chama Marilândia – e assim, revela as muitas histórias das famílias locais e de suas descendências; de lugarejos próximos que já mudaram de nome ou nem existem mais - mas  aqui, é bom lembrar, eles estão fervilhando de vida – das tantas pessoas que ‘coloriam’ esses lugarejos.
Os capítulos, que tem nomes como ‘Os Clãs e os Feudos”; “Uma Família”; “A Religiosidade Popular”; “A Geografia Humana” entre outros,  fazem com que nos sintamos íntimos das pessoas ali apresentadas. É como se entrássemos na casa de cada uma delas,  nas velhas fazendas nas quais moravam  e ouvíssemos  estórias contadas pelos tropeiros que paravam por ali de tempos em tempos, as rezas  e as serestas, e quase podemos ouvir também o rumorejo dos riachos e o barulho do vento nas árvores.
Mas o que torna este  livrinho deveras especial é o fato de o autor escrever contos carregados de poesia e lirismo para tornar o conteúdo mais leve e ainda mais interessante. 
Com nomes como “Dias, meses e anos”, “As partes verdes do sábado” ou “A natureza morta”; ele nos apresenta a história do Desterro por meio de personagens como o Zé Juca e o Tiãzinho, a Maria Euzébia e o João Gaiato; cada um deles talhado na sabedoria e na singeleza do povo do interior de Minas.
“Carradas de meses e dias, anos a perder de vista, vividos nos mínimos momentos da vigília que vai e volta à lucidez e ao sono, sempre ali, sentada no banco tosco de pedra, do lado de fora do casarão, à sombra das magnólias, a cabecear, a fitar nesgas da rua, a mascar o fumo de rolo temperado na cinza do borralho”. 
É assim que começa o conto “Dias, Meses e Anos”, numa arquitetura literária que me lembrou Autran Dourado no seu “Uma vida em segredo”.
Tem ainda a história do Zefolha, das irmãs Morais e de muitos outros personagens que o autor inventou para tornar ainda mais vívidas e quase reais, as histórias das muitas gentes que trabalharam, andaram pelos sertões, carpiram e plantaram, tiveram filhos e os batizaram, ergueram capelas e igrejas, enterraram parentes, fizeram folguedos e acreditaram em assombrações e capetas.
Assim  é este “Memorial do Desterro”, uma viagem no mínimo, diferente,  pela memória de um lugarejo que ainda existe e resiste  ali para os lados de Claudio e Divinópolis, um lugar como tantos outros dessa Minas Gerais e que, como tantos outros, tem particularidades que foram muito bem resgatadas por meio da pesquisa aprofundada e da escrita cuidadosa de Lazaro Barreto.
“No jogo histórico da evolução e do declínio do arraial do Desterro, o autor recupera o movimento humano da região pelos nomes de pessoas, famílias, localidades e fazendas, tropeiros, viajantes, (...) seresteiros, rezadeiras (...). O memorial do Desterro cria a lembrança viva de um lugar no sertão em que tanta gente nasceu, brincou, trabalhou, sofreu, casou, criou família (...)”:  pois faço minhas as palavras do autor do prefácio. 
Neste o Memorial do Desterro uma parte do sertão mineiro ainda vive e continuará a viver por muito, muito  tempo.
Livro:  Memorial do Desterro
Autor:  Lázaro Barreto
Editado pela Diocese de Divinópolis
158 páginas - 1995
O autor mantém esse blog http://lazarobarreto.blogspot.com.br/ no qual mostra outras facetas além dessa de escritor.
* Transcopiado de www.antijornalismo.blogspot.com.br
publicado por animalsapiens às 20:32

31
Out 12

O que é um intelectual? (7)

Sétimo número da série. Passo ao terceiro número do sumário proposto aqui. 1. O PhD. Esta é uma figura emblemática e sagrada na galeria das ambições e das percepções populares. O doutorado (raramente diz que o é em português, prefere um dos prestigiados títulos em inglês, do género PhD) tudo fará para criar a auréola de um ser pertencente à aristocracia do saber profundo, eclesiástico e esotérico. Pêndulo oscilando entre gabinetes, seminários e conferências internacionais, o PhD é reverenciado (ou temido) como uma espécie de deus profano, distante e apetecível.  Depois de se tornar PhD, como que parte de um sistema, o intelectual académico procura geralmente atingir posições de chefia, ser director ou presidente de algum sector, criando um mundo de comando, efeito e distância. Prossigo mais tarde.
(continua)


http://www.oficinadesociologia.blogspot.com.br

publicado por animalsapiens às 10:13

20
Out 12

Talvez não exatamente por essas causas e motivações, exclusivamente, mas sem dúvida a explosão artística e filosófica pós-segunda guerra (1939-45) tem a ver com a própria guerra. Um mundo destroçado em todos os sentidos, com um número incalculável de mortos e desaparecidos, atrocidades nunca imaginadas e todo o lado sombrio do ser humano à mostra.

 

Uma juventude sobrevivente e, muitas vezes, órfã da guerra, tenta um recomeço com novos ritmos e cores, atitudes e interpretações do mundo e da vida. Vários movimentos inspirados em crenças orientais ou tribais, mostrava uma busca de sentido novo para a vida, para o conviver e o viver. Aquela geração acreditou mesmo na Era de Aquarius! Os anos 1960, 70 e 80 mostram toda a capacidade criativa no campo da música e das ideias. A filosofia retomou seu fôlego e a esperança parece ter tomado conta das pessoas.

 

É nos anos 80 que vamos ver produções cinematográficas mostrando que o mundo - ao contrário do que se esperava e desejava -, não ia em boa direção. O admirável mundo novo, de Huxley, se misturava com o 1984, de Orwell, sinalizando queda livre no processo de descivilização. A revolução cultural iniciada no pós-guerra, a partir de 1960, encontrou forças reacionárias poderosas no começo dos anos 1990.

 

Uma profusão de filmes melancólicos e apocalípticos, como Blade Runner, mostra a perda da esperança e a descrença na viabilidade da Era de Aquarius, nas instituições e na própria humanidade. Aqueles trinta anos de otimismo, de boa música, bons livros, boa filosofia e o prazer pelo conhecimento apenas antecipam a ruína da Modernidade, seguida dessa estranhíssima e discutível pós-modernidade que não sabemos exatamente aonde irá nos levar. Só se sabe que nenhuma das promessas de liberdade, igualdade e fraternidade foi cumprida!

publicado por animalsapiens às 11:19

19
Out 12

Minas & Gerais

 

Arte mineira:

No jardim das esculturas

Ricardo Costa: um artista reinventando no interior de Minas.

 

Por Ana Claudia Vargas *

Dores do Indaiá-MG

Para Via Fanzine

17/10/2012

 

 

Ricardo Costa e uma de suas obras em pedra bruta.

 

Cenário cerrado

 

O centro-oeste mineiro é uma região de poucas árvores frondosas, vastos campos áridos, açudes, córregos e horizontes de cores que oscilam entre o verde musgo e o azul acinzentado. Também há por aqui muitos cupinzeiros e apesar da ausência das grandes árvores, há (ainda) muitas outras de porte médio, como os ipês, aquelas espécies aparentemente feiosas, de galhos retorcidos e cascas grossas como é, por exemplo, o araticum, árvore que produz um fruto saboroso e muito apreciado por estas bandas.

 

É uma paisagem de savana – naturalmente seca –, mas apesar ou justamente por isso, trata-se de uma região fértil em espécies rasteiras (gramíneas e arbustos) e a biodiversidade destes campos é constantemente alardeada pelos biólogos e demais conhecedores da natureza.

 

E por aqui há ainda o verdete, um tipo de rocha rica em potássio, de belíssima coloração esverdeada – como o nome sugere - que aparece, inesperadamente, para alegria daqueles que apreciam esses verdadeiros ‘presentes’ da natureza, sobre os rochedos e as muitas estradinhas que quase sempre, terminam em córregos e vales.

 

Assim, depois de caminhar pelos campos de árvores baixas e retorcidas, a gente pode encontrar depois de uma curva, atrás de um jacarandá (outra árvore comum por aqui) ou de um angico, uma estrada toda esverdeada e isso é algo que ilumina a paisagem, o dia e a vida, enfim.

 

Mas, como diria o poeta, ‘é preciso ter olhos de ver’ para apreciar a beleza seca, retorcida e esverdeada desses campos, dessas árvores e desses horizontes azuis acinzentados; e o escultor Ricardo Costa, um artista que nasceu na região, sempre teve desde muito cedo, estes raros ‘olhos de ver’.

 

 

Monalisa de Ricardo Costa aprecia refrigerante.

 

Pescarias imaginárias

 

Foi ainda na infância, quando morava numa fazenda, que o menino Ricardo começou a enxergar as belezas locais. Ele conta que desde sempre gostava muito de desenhar vacas, bois e ‘tudo mais’ com carvão, o material mais fácil de encontrar porque aqui ainda há, nas casas da cidade e nas roças, muitos fogões de lenha, daí a presença farta de carvão.

 

Pode-se dizer, portanto, que foi assim que tudo começou e por tudo entenda-se uma carreira que hoje é feita a partir do manuseio de outras matérias primas, digamos, mais refinadas, como a argila, a madeira e claro, o precioso e tão bonito, verdete.

 

Ricardo Costa, como todo bom mineiro, não é de falar muito; e como todo artista que se preze é um eterno curioso e observador nato. Diversificou de tal forma sua arte e em seu ateliê, há oratórios e esculturas de tamanhos variados. São muitos santos, madonas, escravos, medusas, gárgulas, profetas e até um soldado romano em tamanho natural, até telas nas quais retrata a paisagem tipicamente interiorana da cidade na qual vive, Dores do Indaiá, com aproximadamente 13 mil habitantes e situada a 250 km de Belo Horizonte.

 

 

Algumas esculturas de Ricardo Costa.

 

Suas paisagens compõem praças bucólicas, festas populares, estradas que se perdem entre arvorezinhas. As ruas simplórias e as pessoas que também fazem parte de um cenário tão tipicamente mineiro, como o vendedor de picolé, que já deixou de existir, mas está devidamente registrado em sua pintura, expressa por sua visão única, uma imagem toda especial e memorável. E, por falar em visão única, Ricardo também faz uma releitura pós-moderna do ícone de Da Vinci, a Monalisa, segurando graciosamente, uma Coca- Cola e isso é bem perturbador como a arte deve ser.

 

Admirador confesso de Caravaggio – ele foi à exposição que esteve antes na Casa Fiat, em Belo Horizonte –, Michelangelo e Aleijadinho, Ricardo nos oferece uma visão artística renovada, colorida e singular que se fragmenta em entalhes, corpos e rostos de santos. Dilui-se na pedra que compõe as faces de anjos e profetas; desliza nos pinceis que eternizam a geografia cotidiana e quase recatada da região, os morros, as pessoas e as praças. E por fim, representa, sobretudo,  de maneira  luminosa, os muitos modos de viver das gentes e porque não, das árvores, matas e córregos desse tão bonito cerrado mineiro.

 

 

O criador e as suas criaturas.

 

Quando perguntado o que seria a ‘arte’ para ele – essa pergunta inútil e reconheço: clichê –, ele diz que é como se estivesse em uma pescaria: é preciso silêncio e concentração quando está esculpindo ou pintando; é preciso se ‘esquecer da vida’ para que seja possível retornar, depois, com o resultado de sua ‘pescaria imaginária’.

 

E para nós que estamos na superfície, a impressão é exatamente esta: é como se após um mergulho em águas esverdeadas e profundas, ele retornasse com suas tantas e variadas preciosidades.

 

* Ana Claudia Vargas é jornalista e colaboradora de Via Fanzine.

   Seu blog é http://antijornalismo.blogspot.com.br.

 

- Fotos: Arquivo de Ricardo Costa.

 

Extra:

Visite o portal oficial de Ricardo Costa

 

Página inicial  HOME

publicado por animalsapiens às 11:59

18
Out 12

"Se Auschwitz existiu, Deus não existe"; essa certamente é a mais melancólica e desesperadora frase do livro que virou filme: A Trégua, do escritor italiano Primo Levi (Turim, 31 de julho de 1919 — Turim, 11 de abril de 1987), um dos sobreviventes desse campo de concentração, conservado como história-memória de coisas que não deveriam mais acontecer. Mas acontecem! Ainda temos a Faixa de Gaza e outras regiões no mundo que são mais ou menos como campos de concentração, de refugiados, tal como as comunidades pobres chamadas de 'favelas', quase sempre associadas, equivocadamente, a locais de criminalidade e narcotráfico. 

 

Mas, e os presídios brasileiros, sempre superlotados? E as escolas, um tanto como centros de confinamento, onde os alunos são tratados como códigos de barras? E certos hospitais com gente deitada pelo chão ou em macas improvisadas? Se lá houve a industrialização da morte, hoje vemos a banalização da morte e da própria vida. E o que virá depois? Quando haverá tempo e interesse reais pela tolerância, solidariedade e para a compaixão?

 

publicado por animalsapiens às 12:00

14
Out 12

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Seção “Geraes de Minas”

 

“Minas principia de dentro para fora e do céu para o chão...” (Guimarães Rosa no conto “Minha Gente’, do  livro “Sagarana”)

Foi assim: de tanto ler aqui e ali, bobagens sobre Minas Gerais, de tanto conversar com amigos sobre o que viria a ser as “Minas Gerais” – para além das chatíssimas propagandas turísticas, dos comerciais mostrando as mesmas imagens¹ (Ouro Preto, “Beagá”, montanhas, Inhotim, gente de chapéu de palha ou aquela falsa modernidade de prédios espelhados que se vê de Uberaba a Divinópolis), para muito além das mais chatíssimas ainda notas sociais que ainda existem nos jornalões mineiros² (fulano de sobrenome X que casou com sicrana de sobrenome Y; sicrana que voltou da Europa e abre um negócio no  bairro X; aquelas tentativas frustradas (felizmente) de fazer com que o jeito ‘mineiro’ se molde ao que Rio e São Paulo esperam (vocês pensam que isso é bobagem mas não é não!), para além, enfim, do que existe de Minas na  velha imprensa que pertence às famílias X e Y, aquelas que não tem nenhum interesse em mostrar as histórias e estórias de uma Minas que existe – e resiste – nas ruas empoeiradas, nos sotaques carregados, no jeito de viver, enfim, dessas pessoas que moram nos lugares mais distantes (ou não), que ainda exercem profissões que já se extinguiram; alguns, os mais velhos, aqueles que sequer leem jornais porque  na maioria das vezes, não puderam aprender a ler – quanta gente assim ainda há em Minas – e por aí afora.

E, em meio a tudo isso, outra Minas há muito já deu o ar de sua (des?)graça: é aquela pós-moderna (um termo inadequado mas necessário), aquela que vivencia os efeitos da tal globalização e é formada por milhares de jovens que são filhos e netos da ‘geração das profissões em fase de extinção’ (os marceneiros – como meu pai – os alfaiates, as costureiras e quitandeiras...); são jovens que, apesar da (alardeada?) facilidade de se continuar os estudos e melhorar de vida  ainda não tem acesso (por razões variadas e específicas) a uma vida melhor do que a que tiveram seus pais e avós.  

Muitos deles sonham em ir para os EUA ou para a Bélgica (agora parece ser o ‘país da vez’) para fazer faxina  ou o que quer que seja.³ Eu sempre me identifiquei muito com a história dos que não terão sua história contada em lugar nenhum: nunca me reconheci – nem a nenhum dos meus – quando lia (leio) o que a imprensa mineira publicava (e claro: continua publicando), mas para além das minhas muitas limitações teóricas para tratar de temas que poderiam ‘explicar’ porque as coisas em Minas são dessa forma (e agora me vem à cabeça a imagem do Aécio Neves cutucando a presidenta Dilma com aquelas bobagens que ele sabe dizer tão bem sobre ‘ser mineiro’, como se ele soubesse o que vem a ser isso...é irônico); nessa seção eu espero poder colocar textos, fotos, notícias  da ‘outra’ Minas Gerais, aquela que se parece mais com a que eu gosto e cresci admirando, aquela que é feita de uma simplicidade que não exclui a busca por outros modos de pensar (para além dos academicismos ou das visões superficiais), aquela que é feita por gente de todas as classes, gente que não faz nenhuma questão de se dizer dessa ou daquela família, desse ou daquele sobrenome e/ou partido político e por aí afora.

Para terminar: sua leitura, comentário e contribuição será muitíssimo bem vinda! Peço que perdoe a confusão do texto acima, com o tempo eu espero ir afinando as muitas ideias que gostaria de discutir aqui.

[...]


www.antijornalismo.blogspot.com.br - por Ana Cláudia Vargas

publicado por animalsapiens às 13:21

11
Out 12

Houve época em que se levava as coisas a sério. Saudosismo? Nostalgia? Nada disso! Uma constação de que nesse mundo que se liquefaz dia após dia, há cada vez menos espaço para o humano. A ditadura das marcas, da moda, do espetáculo, do consumo ... O que vai restar de nossa civilização tão técnica e tão pobre? Vivemos num mundo onde máquinas e informática tornam as coisas mais rápidas, mas não melhores. Os relacionamentos se enfraquecem, o diálogo desaparece ... No futuro seremos conhecidos como os seres da Idade do Plástico.

 

Seres carregados e dependentes de quinquilharias eletrônicas, e ocos, vazios, cadáveres que respiram; seres sem metas, propósitos, ... a certeza de nossa finitude já nos fez usar melhor nosso tempo e recursos. Hoje as pessoas fogem da consciência dessa finitude, preenchendo seu lugar com coisas e comportamentos bizarros. Uma boa parte perdeu-se de si mesma e não parece interessada em se reencontrar.

 

Tudo indica que uma nova civilização vem por aí, passando por cima dessa modernosa vida vazia que nos é imposta por um modelo econômico diabólico, que fez da sociedade um subprodudo da economia.

publicado por animalsapiens às 12:50

25
Set 12

Chris Hedges: Orwell estava certo. Huxley, também

Published on Monday, December 27, 2010 by TruthDig.com

2011: A Brave New Dystopia

by Chris Hedges

As duas grandiosas visões sobre uma futura distopia foram as de George Orwell em 1984 e de Aldous Huxley em Brave New World. O debate entre aqueles que assistiram nossa decadência em direção ao totalitarismo corporativo era sobre quem, afinal, estava certo. Seria, como Orwell escreveu, dominado pela vigilância repressiva e pelo estado de segurança que usaria formas cruas e violentas de controle? Ou seria, como Huxley anteviu, um futuro em que abraçariamos nossa opressão embalados pelo entretenimento e pelo espetáculo, cativados pela tecnologia e seduzidos pelo consumismo desenfreado? No fim, Orwell e Huxley estavam ambos certos. Huxley viu o primeiro estágio de nossa escravidão. Orwell anteviu o segundo.

Temos sido gradualmente desempoderados por um estado corporativo que, como Huxley anteviu, nos seduziu e manipulou através da gratificação dos sentidos, dos bens de produção em massa, do crédito sem limite, do teatro político e do divertimento. Enquanto estávamos entretidos, as leis que uma vez mantiveram o poder corporativo predatório em cheque foram desmanteladas, as que um dia nos protegeram foram reescritas  e nós fomos empobrecidos. Agora que o crédito está acabando, os bons empregos para a classe trabalhadora se foram para sempre e os bens produzidos em massa se tornaram inacessíveis, nos sentimos transportados do Brave New World para 1984. O estado, atulhado em déficits maciços, em guerras sem fim e em golpes corporativos, caminha em direção à falência.

[...]

Orwell nos alertou sobre um mundo em que os livros eram banidos. Huxley nos alertou sobre um mundo em que ninguém queria ler livros. Orwell nos alertou sobre um estado de guerra e medo permanentes. Huxley nos alertou sobre uma cultura de prazeres do corpo. Orwell nos alertou sobre um estado em que toda conversa e pensamento eram monitorados e no qual a dissidência era punida brutalmente. Huxley nos alertou sobre um estado no qual a população, preocupada com trivialidades e fofocas, não se importava mais com a verdade e a informação. Orwell nos viu amedrontados até a submissão. Mas Huxley, estamos descobrindo, era meramente o prelúdio de Orwell. Huxley entendeu o processo pelo qual seríamos cúmplices de nossa própria escravidão. Orwell entendeu a escravidão. Agora que o golpe corporativo foi dado, estamos nus e indefesos. Estamos começando a entender, como Karl Marx sabia, que o capitalismo sem limites e desregulamentado é uma força bruta e revolucionária que explora os seres humanos e o mundo natural até a exaustão e o colapso.

“O partido busca todo o poder pelo poder”, Orwell escreveu em 1984. “Não estamos interessados no bem dos outros; estamos interessados somente no poder. Não queremos riqueza ou luxo, vida longa ou felicidade; apenas poder, poder puro. O que poder puro significa você ainda vai entender. Nós somos diferentes das oligarquias do passado, já que sabemos o que estamos fazendo. Todos os outros, mesmo os que se pareciam conosco, eram covardes e hipócritas. Os nazistas alemães e os comunistas russos chegaram perto pelos seus métodos, mas eles nunca tiveram a coragem de reconhecer seus próprios motivos. Eles fizeram de conta, ou talvez tenham acreditado, que tomaram o poder sem querer e por um tempo limitado, e que logo adiante havia um paraíso em que os seres humanos seriam livres e iguais. Não somos assim. Sabemos que ninguém toma o poder com a intenção de entregá-lo. Poder não é um meio; é um fim. Ninguém promove uma ditadura com o objetivo de assegurar a revolução; se faz a revolução para assegurar a ditadura. O objeto da perseguição é perseguir. O objeto de torturar é a tortura. O objeto do poder é o poder”.

O filósofo político Sheldon Wolin usa o termo “totalitarismo invertido” no livro “Democracia Ltda.” para descrever nosso sistema político. É um termo que não faria sentido para Huxley. No totalitarismo invertido, as sofisticadas tecnologias de controle corporativo, intimidação e manipulação de massas, que superam em muito as empregadas por estados totalitários prévios, são eficazmente mascaradas pelo brilho, barulho e abundância da sociedade de consumo. Participação política e liberdades civis são gradualmente solapadas. O estado corporativo, escondido sob a fumaça da indústria de relações públicas, da indústria do entretenimento e do materialismo da sociedade de consumo, nos devora de dentro para fora. Não deve nada a nós ou à Nação. Faz a festa em nossa carcaça.

O estado corporativo não encontra a sua expressão em um líder demagogo ou carismático. É definido pelo anonimato e pela ausência de rosto de uma corporação. As corporações, que contratam porta-vozes atraentes como Barack Obama, controlam o uso da ciência, da tecnologia, da educação e dos meios de comunicação de massa. Elas controlam as mensagens do cinema e da televisão. E, como no Brave New World, elas usam as ferramentas da comunicação para aumentar a tirania. Nosso sistema de comunicação de massas, como Wolin escreveu, “bloqueia, elimina o que quer que proponha qualificação, ambiguidade ou diálogo, qualquer coisa que esfraqueça ou complique a força holística de sua criação, a sua completa capacidade de influenciar”.

O resultado é um sistema monocromático de informação. Cortejadores das celebridades, mascarados de jornalistas, experts e especialistas, identificam nossos problemas e pacientemente explicam seus parâmetros. Todos os que argumentam fora dos parâmetros são desprezados como chatos irrelevantes, extremistas ou membros da extrema esquerda. Críticos sociais prescientes, como Ralph Nader e Noam Chomsky, são banidos. Opiniões aceitáveis cabem, mas apenas de A a B. A cultura, sob a tutela dos cortesãos corporativos, se torna, como Huxley notou, um mundo de conformismo festivo, de otimismo sem fim e fatal.

Nós nos ocupamos comprando produtos que prometem mudar nossas vidas, tornar-nos mais bonitos, confiantes e bem sucedidos — enquanto perdemos direitos, dinheiro e influência. Todas as mensagens que recebemos pelos meios de comunicação , seja no noticiário noturno ou nos programas como “Oprah”, nos prometem um amanhã mais feliz e brilhante. E isso, como Wolin apontou, é “a mesma ideologia que convida os executivos de corporações a exagerar lucros e esconder prejuízos, sempre com um rosto feliz”. Estamos hipnotizados, Wolin escreve, “pelo contínuo avanço tecnológico” que encoraja “fantasias elaboradas de poder individual, juventude eterna, beleza através de cirurgia, ações medidas em nanosegundos: uma cultura dos sonhos, de cada vez maior controle e possibilidade, cujos integrantes estão sujeitos à fantasia porque a grande maioria tem imaginação, mas pouco conhecimento científico”.

Nossa base manufatureira foi desmantelada. Especuladores e golpistas atacaram o Tesouro dos Estados Unidos e roubaram bilhões de pequenos acionistas que tinham poupado para a aposentadoria ou o estudo. As liberdades civis, inclusive o habeas corpus e a proteção contra a escuta telefônica sem mandado, foram enfraquecidas. Serviços básicos, inclusive de educação pública e saúde, foram entregues a corporações para explorar em busca do lucro. As poucas vozes dissidentes, que se recusam a se engajar no papo feliz das corporações, são desprezadas como freaks.

[...]

A fachada está desabando. Quanto mais gente se der conta de que fomos usados e roubados, mais rapidamente nos moveremos do Brave New World de Huxley para o 1984 de Orwell. O público, a certa altura, terá de enfrentar algumas verdades doloridas. Os empregos com bons salários não vão voltar. Os maiores déficits da história humana significam que estamos presos num sistema escravocrata de dívida que será usado pelo estado corporativo para erradicar os últimos vestígios de proteção social dos cidadãos, inclusive a Previdência Social.

O estado passou de uma democracia capitalista para o neo-feudalismo. E quando essas verdades se tornarem aparentes, a raiva vai substituir o conformismo feliz imposto pelas corporações. O vazio de nossos bolsões pós-industriais, onde 40 milhões de norte-americanos vivem em estado de pobreza e dezenas de milhões na categoria chamada “perto da pobreza”, junto com a falta de crédito para salvar as famílias do despejo, das hipotecas e da falência por causa dos gastos médicos, significam que o totalitarismo invertido não vai mais funcionar.

Nós crescentemente vivemos na Oceania de Orwell, não mais no Estado Mundial de Huxley. Osama bin Laden faz o papel de Emmanuel Goldstein em 1984. Goldstein, na novela, é a face pública do terror. Suas maquinações diabólicas e seus atos de violência clandestina dominam o noticiário noturno. A imagem de Goldstein aparece diariamente nas telas de TV da Oceania como parte do ritual diário da nação, os “Dois Minutos de Ódio”. E, sem a intervenção do estado, Goldstein, assim como bin Laden, vai te matar. Todos os excessos são justificáveis na luta titânica contra o diabo personificado.

A tortura psicológica do cabo Bradley Manning — que está preso há sete meses sem condenação por qualquer crime — espelha o dissidente Winston Smith de 1984. Manning é um “detido de segurança máxima” na cadeia da base dos Fuzileiros Navais de Quantico, na Virginia. Eles passa 23 das 24 horas do dia sozinho. Não pode se exercitar. Não pode usar travesseiro ou roupa de cama. Médicos do Exército enchem Manning de antidepressivos. As formas cruas de tortura da Gestapo foram substituídas pelas técnicas refinadas de Orwell, desenvolvidas por psicólogos do governo, para tornar dissidentes como Manning em vegetais. Quebramos almas e corpos. É mais eficaz. Agora todos podemos ir ao temido quarto 101 de Orwell para nos tornarmos obedientes e mansos.

Essas “medidas administrativas especiais” são regularmente impostas em nossos dissidentes, inclusive em Syed Fahad Hasmi, que ficou preso sob condições similares durante três anos antes do julgamento. As técnicas feriram psicologicamente milhares de detidos em nossas cadeias secretas em todo o mundo. Elas são o exemplo da forma de controle em nossas prisões de segurança máxima, onde o estado corporativo promove a guerra contra nossa sub-classe política – os afro-americanos. É o presságio da mudança de Huxley para Orwell.

“Nunca mais você será capaz de ter um sentimento humano”, o torturador de Winston Smith diz a ele em 1984.”Tudo estará morto dentro de você. Nunca mais você será capaz de amar, de ter amigos, do prazer de viver, do riso, da curiosidade, da coragem ou integridade. Você será raso. Vamos te apertar até esvaziá-lo e vamos encher você de nós”.

O laço está apertando. A era do divertimento está sendo substituída pela era da repressão. Dezenas de milhões de cidadãos tiveram seus dados de e-mail e de telefone entregues ao governo. Somos a cidadania mais monitorada e espionada da história humana. Muitos de nós temos nossa rotina diária registrada por câmeras de segurança. Nossos hábitos ficam gravados na internet. Nossas fichas são geradas eletronicamente.  Nossos corpos são revistados em aeroportos e filmados por scanners. Anúncios públicos, selos de inspeção e posters no transporte público constantemente pedem que relatemos atividade suspeita. O inimigo está em toda parte.

Aqueles que não cumprem com os ditames da guerra contra o terror, uma guerra que, como Orwell notou, não tem fim, são silenciados brutalmente. Medidas draconianas de segurança foram usadas contra protestos no G-20 em Pittsburgh e Toronto de forma desproporcional às manifestações de rua. Mas elas mandaram uma mensagem clara — NÃO TENTE PROTESTAR. A investigação do FBI contra ativistas palestinos e que se opõem à guerra, que em setembro resultou em buscas em casas de Minneapolis e Chicago, é uma demonstração do que espera aqueles que desafiam o Newspeak oficial. Os agentes — ou a Polícia do Pensamento — apreenderam telefones, computadores, documentos e outros bens pessoais. Intimações para aparecer no tribunal já foram enviadas a 26 pessoas. As intimações citam leis federais que proíbem “dar apoio material ou recursos para organizações terroristas estrangeiras”. O Terror, mesmo para aqueles que não tem nada a ver com terror, se torna o instrumento usado pelo Big Brother para nos proteger de nós mesmos.

“Você está começando a entender o mundo que estamos criando?”, Orwell escreveu. “É exatamente o oposto daquelas Utopias estúpidas que os velhos reformistas imaginaram. Um mundo de medo, traição e tormento, um mundo em que se atropela e se é atropelado, um mundo que, ao se sofisticar, vai se tornar cada vez mais cruel”.

www.viomundo.com.br
__._,_.

publicado por animalsapiens às 11:51

23
Set 12

"Há quem viva toda uma vida em um minuto" - Frase do filme 'Perfume de mulher', numa de suas mais belas cenas (o cego, vivido por Al Pacino, dançando tango).

publicado por animalsapiens às 13:29

Janeiro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
10
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29
30
31


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
mais sobre mim
pesquisar
 
links
blogs SAPO