Para falar de gente, de seres humanos, do bicho humano perfectível, apesar de tudo. Do Animal sapiens, mas a partir de agora do "Homo spiritualis", com sua fé e religiosidade muitas vezes confusa, gerando preconceitos, discriminações.

26
Out 11

LÍBIA SEM CONTEXTO

Em cena, o cadáver

Por Mauro Malin em 26/10/2011 na edição 665

O noticiário corrente sobre a Líbia ignora ou subestima uma evidência básica: os únicos integrantes do Conselho Nacional de Transição que têm alguma experiência de governo são homens que integravam – em posições de segunda linha – a máquina de governo de Kadhafi.

Eles não abandonaram o barco por convicção, que podem até reivindicar agora, mas por conveniência, para salvar a própria pele. E seus adversários dentro do CNT sabem disso muito bem.

O tipo de resistência que o novo e dividido governo vai encontrar pode ser avaliado pelo fato de que, mesmo com apoio da Otan – com milhares de ataques aéreos, mas também com treinamento de tropas locais, gerenciamento de logística, supervisão de comunicações, planejamento de combates −, a confusa e dividida oposição a Kadhafi levou sete longos meses para derrubá-lo.

Morbidez em lugar de compreensão

Enquanto a maior parte da mídia ocupa espaço com o sensacionalismo abjeto da exibição do cadáver do coronel, a complexidade da política e da sociedade líbia é negligenciada.

E também são ignoradas as ligações diretas da guerra civil na Líbia com acontecimentos e processos que ajudam a compor o momento estratégico: por exemplo, crise na Europa, retirada das tropas americanas do Iraque, virtual impossibilidade de haver intervenção armada na Síria, lenta mas constante modificação da posição pró-ocidental da Turquia, crescimento da influência iraniana em todo o arco que vai do norte da Arábia Saudita até o sul da Turquia, vitória de um partido religioso nas eleições tunisianas.

O destino de um cadáver se sobrepõe, na hierarquia do noticiário, ao destino das vidas de 6,5 milhões de líbios.  

Vitória do Comercial

Pela enésima vez, troca-se um mínimo de aprofundamento pela valorização do que é raso mas atrai a curiosidade mórbida ou epidérmica de muitos leitores.

A lição da qualidade jornalística como penhor da credibilidade e âncora de uma audiência qualificada não entra em muitas cabeças à frente das redações.

Vitória dos departamentos comerciais sobre o jornalismo. Será a turma do Comercial capaz de liderar as transformações colocadas no terreno pela emergência e expansão das mídias digitais?

 

Do Observatório da Imprensa

publicado por animalsapiens às 11:00

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