Para falar de gente, de seres humanos, do bicho humano perfectível, apesar de tudo. Do Animal sapiens, mas a partir de agora do "Homo spiritualis", com sua fé e religiosidade muitas vezes confusa, gerando preconceitos, discriminações.

14
Nov 12

Não foi a quebra de Bancos nos Estados Unidos que iniciou a atual crise financeira. Nem foi a suposta produção de armas de extermínio em massa que levou os EUA a atacarem o Iraque; nem o terrorismo da Al Qeda, ter como consequência a destruição do Afeganistão. Não foi a ausência de democracia ocidental na Líbia de Gaddafi que gerou a destruição do país com maior IDH da África, como não será o suposto enriquecimento de urânio por parte do Irã que ocasionará, eventualmente, um ataque dos EUA/Israel.

 

Sob as colinas de Golã, na Síria, existe muita água potável escoando por baixo de Israel e chegando a outras regiões, como à faixa de Gaza. Essas guerras e agressões têm outras motivações e interesses além da geopolítica e do petróleo. Água, combustível, cereais, controle de terras agricultáveis por parte dos países que estão em franco processo de esgotamento natural, como os europeus e anglo-americanos. E que ninguém se iluda, pois a América Latina é vista como reserva futura. A mentalidade colonizadora e imperialista ainda existe.

 

Enfim, o que está por trás de tudo isso é a ganância e o egoísmo humanos. A mesquinhez, o orgulho de raça, de crença ou de casta. A economia não é uma ciência oculta, mas a manipulação de interesses e um mecanismo de modulação do comportamento coletivo. Diante do risco de graves problemas ambientais, o bicho homem continua o predador de sempre. Os princípios elementares da solidariedade e do altruísmo virão, certamente, por força das circunstâncias, talvez quando já for tarde demais. As crises sociais são resultado da crise de humanidade.

 

- por Paulo Santos

 

publicado por animalsapiens às 10:02

13
Nov 12

OS DOIS BRASIS: O DA ALIENAÇÃO E O DA VIOLÊNCIA

                                                       Paulo R. Santos*
Assim como toda cidade não é única, mas duas: a diurna com sua rotina e pessoas características, e a noturna, com sua outra – e muitas vezes perigosa – rotina das sombras e dos medos, o Brasil nunca foi único nem uniforme. E nem poderia ser!
Gilberto Freire, sociólogo da primeira metade do século XX, identificou dois Brasis, herdados do período colonial, aos quais chamou de Casa-Grande e Senzala, nome do livro que publicou em 1933, e que inaugura uma nova fase de interpretação da história brasileira, sem usar as lentes europeias.
 
Gilberto Freyre (fonte Wikipédia)
Esse duplo Brasil ainda existe e persiste com força maior, apesar dos esforços em amenizar o sofrimento na Senzala. A elite dominante olha da porta ou da janela do casarão, relativamente seguro, luxuoso e pequeno, o enorme espaço por onde circula uma população diversificada nas crenças e nas cores, sobrevivendo como pode, vez por outra - ou quase sempre -, acuada pelas dificuldades e reprimida pela polícia, infeliz herdeira cultural do Capitão do mato e dos jagunços.
A alienação da elite, que é um tipo de violência, alimenta as dificuldades dos herdeiros das senzalas, que vivem em meio a outras formas de violência, tornando-se – muitas vezes – violentos por força das circunstâncias extremas. Uma elite prisioneira do egoísmo e da alienação. Uma população prisioneira da escassa educação e dos desejos não atendidos.
O resultado está bem visível nos números que nos atormentam e amedrontam. Cerca de 45 mil homicídios por ano. Bolsões de violências várias, onde parece não existirem inocentes. O principal agressor, o Estado, alimenta a violência que se estende e amplia para novas áreas, no mínimo por não cumprir com seus deveres constitucionais.
Estados paralelos
Exemplos claros são o Rio de Janeiro com um estado paralelo infiltrado no estado formal, e São Paulo, com um crime organizado capaz de estabelecer regras de convívio entre o legal e o ilegal. A violência de um lado produz a reação igualmente violenta do outro. E não nos iludamos pensando que a situação não se repete em outros estados menos midiáticos ou no coração do governo federal: Brasília. O Brasil sempre foi um país injusto!
 
Injustiças existem por aqui desde sempre. (Imagem: Wikipédia Free)
A reversão desse quadro melancólico exige coragem e vontade política dos governantes que cuidam (ou não) do erário, dos tributos, e da destinação dos recursos públicos. É preciso investir pesadamente em educação, saúde, cultura, segurança pública, lazer, transporte, trabalho e emprego, dentre outras coisas.

Não como um negócio, mas como o preço pela sobrevivência de uma sociedade que vive no medo e na incerteza, alimentos ricos em violência.

 


* Paulo Roberto Santos é professor e sociólogo, edita o blog  http://animalsapiens.blogs.sapo.pt/ e é colaborador oficial deste blog.

** Transcopiado de www.antijornalismo.blogspot.com.br
publicado por animalsapiens às 10:39

11
Nov 12

Sou do tempo em que crianças brincavam de guerra. Apenas brincavam, imitando o que viam naquela enxurrada de filmes vindos principalmente dos Estados Unidos, então em guerra contra o Vietnam. A guerra, vista assim de longe, na telinha, cercada de uma falsa aura de glória e coragem, passava a impressão de que era o ponto máximo a que um homem poderia chegar na vida.

 

Na adolescência pude ter contato com um senhor de certa idade, fugitivo de Angola, e que vivia num desses abrigos para idosos na capital mineira. Eram tempos de lutas pela libertação de Portugal. Eu morava quase ao lado da residência de um ex-combatente da segunda guerra mundial que, um dia, vendo-me passar pela frente de sua casa, como habitualmente fazia para ir trabalhar, insistiu para que eu lesse um certo fascículo do então popular Reader's Digest (Seleções), que trazia um longo trecho em português de Portugal, do diário de um sargento da Batalha de Waterloo, aquela que havia posto fim à carreira de Napoleão Bonaparte em 1815.

 

Assim que tive tempo, comecei a ler ainda meio sem vontade, mas sabia que ele gostaria de comentar o assunto depois. Foi assim o meu primeiro contato com a guerra verdadeira. A leitura do diário me pôs em contato com o momento vivido por aquele homem que descreveu o medo e a ansiedade que antecedia a batalha. Falava dos batalhões formados por milhares de soldados mais jovens e inexperientes, e da tremedeira ou diarreia que se espalhava por causa do medo do que estava por acontecer. Descreveu a batalha que teve um número imenso de mortos e feridos, e da necessidade de misturar veteranos com os novatos para estabilizar os pelotões. Falou de um oficial de cavalaria atingido em pleno peito por uma bala de canhão, e de outro que segurava as rédeas do cavalo com a boca por causa dos ferimentos nos dois braços. Citou a dificuldade das arremetidas da cavalaria por conta do número de mortos e das baionetas caídas no solo e que feriam as patas dos animais.

 

Com os anos aprendi que naqueles tempos as guerras aconteciam entre exércitos e não envolviam diretamente a população civil. Os campos de batalha eram escolhidos e lá se decidia entre soldados. Depois da segunda guerra mundial, as guerras já não escolhem claramente os alvos. Qualquer um, civil ou militar, é alvo potencial da artilharia, dos bombardeios e das rajadas de metralhadoras,, ... apesar de dizerem o contrário.

 

Hoje, estamos todos envolvidos nas guerras urbanas, alimentadas pelo narcotráfico, pelo tráfico de armas, pela fome, pelas neuroses, pela miséria moral e material, pela ineficiência do Estado em cumprir sua missão constitucional e pelo egoísmo de classe e de casta. Como dizem, saímos de casa candidatos a vítimas e voltamos como sobreviventes. A guerra não acontece mais lá, mas em toda parte.

 

- por Paulo Santos

 

 

 

publicado por animalsapiens às 09:50

10
Nov 12

De: "blog do ozaí" <comment-reply@wordpress.com>
Data: 10 de novembro de 2012 00:51
Assunto: [Novo post] A experiência da dor!



Antonio Ozaí da Silva publicou: "A dor começou sem aviso prévio. Insidiosa, despontou quando ele se dirigia para mais uma atividade acadêmica considerada importante, especialmente, pelos organizadores. Ele não costuma faltar, independente do referencial teórico e dos interesses envo"
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Novo post em blog do ozaí

A experiência da dor!

by Antonio Ozaí da Silva

A dor começou sem aviso prévio. Insidiosa, despontou quando ele se dirigia para mais uma atividade acadêmica considerada importante, especialmente, pelos organizadores. Ele não costuma faltar, independente do referencial teórico e dos interesses envolvidos. Aliás, ele não compreende a prática de uns e outros de comparecer apenas nos eventos da confraria com a qual se identifica. Ele não queria faltar. Poderiam imaginar que ele ‘boicotou’. Por que será que ele se preocupa com as maledicências? Talvez tenha levado muito a sério o conselho do florentino sobre a necessidade de manter as aparências. Mas, pensando bem, ele não é do tipo maquiavélico!

A dor se intensificou e, com ela, a certeza de que não poderia ficar no evento. De volta a casa, na esperança de que a medicação já costumeira lhe daria alívio, a dor atormentava-o. Finalmente, chegou e, para seu desalento, viu que estava só. A dor lombar indicava que poderia ser a coluna, nervo ciático. Já catedrático em dores nesta região do corpo, imaginou que se tratava de mais uma crise conhecida. Automedicou-se e aquietou-se na esperança de que a dor cedesse. A dor persistia. Não encontrava posição que a tornasse suportável e o relaxante muscular não surtia efeito. Deitou de bruços, de barriga para cima, de lado, em posição fetal... Não adiantou! A dor insistia e tornava-se insuportável.

Cerca de quatro horas depois que ela dera os primeiros sinais de que aquela noite seria inesquecível em sua vida, levaram-no ao hospital. O corpo contorcido e a expressão de dor não comoveram a funcionária e ele precisou aguardar os procedimentos formais burocráticos. Ele esperava e, ainda que a dor o torturasse, recordou dos ensinamentos de Max Weber sobre a burocracia. A dor humana não se sobrepõe às exigências da organização burocrática. Ainda que sofra, é preciso esperar. Em sua dor, ele compreendia o apego profissional da atendente. Afinal, a dor é parte do seu cotidiano. Sua atitude é impessoal e funcional.

Finalmente, o chamaram. Mas ainda não era o alívio que ele esperava, ou seja, a consulta médica e, de acordo com o procedimento padrão, a aplicação de um coquetel de medicamentos por aplicação endovenosa. Enganou-se, não chegara o socorro almejado. Numa situação de dor intensa tudo que se quer é a sua atenuação e eliminação. Em vez disso, a enfermeira mediu a pressão e disse que estava normal. Ainda bem! Como um pedido, educadamente, ela mandou-o de volta à sala de espera e disse que aguardasse o médico chamar.

A espera parecia uma eternidade. A dor teimava em atormentar o corpo e a alma. Finalmente, o doutor pronunciou o seu nome. Ele adentrou ao consultório e até sentiu-se melhor diante da possibilidade iminente de aliviar a dor. Contou ao médico o que sentia e até lembrou-se de detalhes que antecederam à eclosão da dor, os quais poderiam contribuir para o diagnóstico. Gentil e atencioso, o medico examinou-o e solicitou os exames de praxe. Encaminhou-o, então, para ser medicado. Era tudo o que ele queria. A cada gota que descia pelo equipo e introduzia-se na corrente sanguínea, a dor cedia e era substituída por uma sensação aliviante.

Os exames solicitados pelo médico confirmaram o diagnóstico: cólica renal. Coincidentemente, uma senhora sofria de dores semelhantes e, veterana, já sabia o que era. Tagarelava, talvez como um antídoto à dor. Ele mantinha-se em silêncio, de olhos fechados e mal a ouvia. Ainda assim, não esqueceu quando ela disse: “Cólica renal é pior que dor de parto!” Ela falava com propriedade, era mãe. Só lhe restava concordar! Em seu íntimo, sentiu-se solidário com as mulheres e profundamente agradecido àquela que o gerou e a quem o acompanhava e permaneceu ao seu lado o tempo todo. A dor é menos dilacerante quando não se está só!

A dor cedeu e ele foi dispensado, com o conselho de procurar um urologista. Três dias depois, ela retornou. Dessa vez, porém, era suportável. Sua companheira conseguiu agendar uma consulta de urgência com o especialista. Este o encaminhou para fazer uma ultrassonografia. Confirmou-se o diagnóstico do médico plantonista que o atendera. A causa da dor era um cálculo renal, a popular pedra nos rins, de 0,7 cm.

Diante do diagnóstico, o doutor indicou a necessidade de cirurgia. Ele recusou-se a seguir a orientação médica! Dias depois, foi acometido por dores na região abdominal. A experiência recente dizia-o que não era cólica renal. Após novos exames e ultrassonografia foi constatado que ele estava com outra pedra no corpo, desta feita alojada na vesícula. Admirou-se pela capacidade de produzir ‘pedras’ e pelo fato de se manifestarem quase que simultaneamente. A notícia boa é que a pedra renal não apareceu nas imagens do exame e tudo indicava que fora expelida. A preocupante é que terá que fazer cirurgia e retirar a vesícula. São os ‘presentes’ do passar do tempo, do cinquentenário!

Antonio Ozaí da Silva | 09/11/2012 às 23:50 | Categorias: reflexões do quotidiano | URL: http://wp.me/pDZ7T-wL

 

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publicado por animalsapiens às 09:58

08
Nov 12

Isadora Faber, do "Diário de Classe", tem casa apedrejada e sofre ameaças

Apesar das intimidações, a adolescente conta com o apoio da família para seguir denunciando as más condições do ensino e da escola onde estuda em sua página no Facebook

André Carvalho - iG São Paulo | 07/11/2012 14:37:15

Isadora Faber, criadora da página do Facebook "Diário de Classe" , ganhou notoriedade ao divulgar, na rede social, as más condições da escola pública onde estuda, em Florianópolis. A grande exposição que a garota de 13 anos passou a ter – atualmente a página conta com mais de 367 mil “curtições” – fez com que ganhasse admiradores e inimigos.

AE
A estudante Isadora Faber, de 13 anos, que criou a comunidade Diário de Classe no Facebook para relatar problemas da escola em que estuda em Florianópolis (29/08)

Ao denunciar, nas últimas semanas, por meio do “Diário de Classe”, a falta de conservação da quadra da escola e o fato do pintor contratado para fazer o serviço ter recebido o dinheiro adiantado pelo trabalho sem que tivesse cumprido a obra, a menina passou a viver um inferno particular.

Leia mais:  Família autora do “Diário de Classe” processa PSD de SC

Primeiro, conforme relatou no Diário de Classe, começou a receber ameaças da filha do pintor, Francisco da Costa Silva, de 47 anos. Depois, nesta segunda-feira, 5, teve a casa apedrejada, e sua avó, de 65 anos, que sofre de doença degenerativa, foi atingida, segundo Isadora.

Nesta terça, 6, quando estava junto com o pai no carro em frente ao colégio, o pintor e sua filha, a ameaçaram. Os incidentes levaram a família da adolescente a registrar, neste mesmo dia, dois boletins de ocorrência - um relativo às ameaças sofridas e outro por conta das pedradas –, e procurar o Ministério Público.

“Ela não vai parar”

Segundo a mãe da garota, Mel Faber, “a situação ficou séria e foi além da conta”. Ela afirmou que irá procurar a Promotoria da Infância e Juventude e preparar um dossiê para “buscar punição” tanto para o pintor Francisco da Costa Silva, quanto para a escola. Para ela “não dá pra argumentar com quem vem e atira pedra na gente”.

Sobre a instituição de ensino, ela afirma que a aluna segue estudando lá, apesar de dizer que “a escola tem responsabilidade” na atual situação de ameaças vivida por sua filha. Para a mãe, Isadora é vítima de bullying. “Os alunos ficam chamando-a de idiota, falando que ela está prejudicando a escola”, relata.

Mobilização: Críticas a escolas unem blogueiras mirins de Brasil e Escócia

Isadora não foi à aula nesta quarta-feira, 7. O motivo foi a presença em um seminário, onde recebeu apoio de estudantes e professores para seguir em frente com o “Diário de Classe”.

“Ela vai seguir atualizando a página, não quer parar”, diz Mel Faber. “Eu fico preocupada, mas incentivo, pois ela está certa e tem que seguir em frente. Se pararmos, será uma vitória para quem quer impedi-la de fazer justiça, então o ‘Diário de Classe’ vai continuar”, garante.

Leia tudo sobre: Diário de ClasseIsadora FaberFlorianópolisFacebookRedes SociaisEscolas Públicas

Transcopiado do Portal IG
publicado por animalsapiens às 09:48

07
Nov 12

Superabundância de informações não é o mesmo que abundância de conhecimentos. Pode ser o contrário! No passado, meia dúzia de bons livros, muita observação e reflexões formavam um sábio. Hoje, com a internet e o mundo virtual - prolongamento do mundo real -, superlotado de informações, parece que o conhecimento escasseia, pois as pessoas não aprendem a interpretar acontecimentos, saber como a vida acontece ou discernir as coisas. Isso me lembra uma frase jocosa de um amigo que costuma dizer que 'um burro carregado de livros é doutor'.

 

Vivemos numa sociedade de informações em tempo real, mas enquanto as pirâmides e construções antigas estão de pé há séculos, as edificações atuais estão rachando com menos de cinco anos. As pessoas não sabem dar nomes aos próprios sentimentos e o diálogo vai desaparecendo das relações humanas. Um número imenso de jovens pode frequentar escolas, mas mal sabem escrever ou fazer cálculos simples.

 

- por Paulo Santos

publicado por animalsapiens às 11:09

05
Nov 12

Resenha: Memorial do Desterro 

Ana Claudia Vargas
“A noção do tempo a escoar no próprio tempo, quando todos os dias começam no mesmo dia que nunca acaba” . (Lazaro Barreto)



 
Foto: Paulo Santos


Como seria contar a história de um lugar a partir das vivências das pessoas desse lugar? Como seria recriar o infindável mosaico de memórias e histórias que compõem a vida de todos nós?
Enquanto vivemos nosso dia-a-dia, não temos como pensar que estamos construindo histórias que depois poderão servir para formar o intrincado quebra cabeças de toda uma época.
Pois agora imagine um livro que conte a ‘história’ de um lugar a partir da vivência dos anônimos, daqueles que são a maioria, daqueles trabalham e constroem suas vidas anonimamente e que nunca terão seus nomes escritos nas pomposas letras dos livros que analisam o passado ‘de cima para baixo’.
Em tempos de celebridades instantâneas, do ficar famoso sem nenhum esforço ou mérito, de mediocridade ululante – parodiando o Nelson Rodrigues – encontrar um livro despretensioso (mas não superficial, muito pelo contrário) que narra a história de um lugar a partir das pessoas simples – seus afazeres, suas sabedorias, tristezas e alegrias -  é realmente um achado.
Um achado precioso: é assim esse livro “Memorial do Desterro”, do escritor mineiro Lázaro Barreto.
É dele que vou falar hoje na sessão Geraes de Minas porque a proposta aqui é também a de resenhar livros pouco conhecidos sobre a história das Minas Gerais.
O livro


O autor do prefácio Frei Bernardino Leers , de forma exata, escreve: “Muito livro de história é macro-história, virtudes e defeitos (...) de governantes, generais e nações (...). São como fotografias coloridas a distância, de panoramas grandiosos em que os detalhes desaparecem entre os bastidores gigantescos das montanhas e vales (...)”.
Pois nesse Memorial, o autor ilumina as reentrâncias dos vales e montanhas que contornam a região do Desterro – hoje o antigo arraial se chama Marilândia – e assim, revela as muitas histórias das famílias locais e de suas descendências; de lugarejos próximos que já mudaram de nome ou nem existem mais - mas  aqui, é bom lembrar, eles estão fervilhando de vida – das tantas pessoas que ‘coloriam’ esses lugarejos.
Os capítulos, que tem nomes como ‘Os Clãs e os Feudos”; “Uma Família”; “A Religiosidade Popular”; “A Geografia Humana” entre outros,  fazem com que nos sintamos íntimos das pessoas ali apresentadas. É como se entrássemos na casa de cada uma delas,  nas velhas fazendas nas quais moravam  e ouvíssemos  estórias contadas pelos tropeiros que paravam por ali de tempos em tempos, as rezas  e as serestas, e quase podemos ouvir também o rumorejo dos riachos e o barulho do vento nas árvores.
Mas o que torna este  livrinho deveras especial é o fato de o autor escrever contos carregados de poesia e lirismo para tornar o conteúdo mais leve e ainda mais interessante. 
Com nomes como “Dias, meses e anos”, “As partes verdes do sábado” ou “A natureza morta”; ele nos apresenta a história do Desterro por meio de personagens como o Zé Juca e o Tiãzinho, a Maria Euzébia e o João Gaiato; cada um deles talhado na sabedoria e na singeleza do povo do interior de Minas.
“Carradas de meses e dias, anos a perder de vista, vividos nos mínimos momentos da vigília que vai e volta à lucidez e ao sono, sempre ali, sentada no banco tosco de pedra, do lado de fora do casarão, à sombra das magnólias, a cabecear, a fitar nesgas da rua, a mascar o fumo de rolo temperado na cinza do borralho”. 
É assim que começa o conto “Dias, Meses e Anos”, numa arquitetura literária que me lembrou Autran Dourado no seu “Uma vida em segredo”.
Tem ainda a história do Zefolha, das irmãs Morais e de muitos outros personagens que o autor inventou para tornar ainda mais vívidas e quase reais, as histórias das muitas gentes que trabalharam, andaram pelos sertões, carpiram e plantaram, tiveram filhos e os batizaram, ergueram capelas e igrejas, enterraram parentes, fizeram folguedos e acreditaram em assombrações e capetas.
Assim  é este “Memorial do Desterro”, uma viagem no mínimo, diferente,  pela memória de um lugarejo que ainda existe e resiste  ali para os lados de Claudio e Divinópolis, um lugar como tantos outros dessa Minas Gerais e que, como tantos outros, tem particularidades que foram muito bem resgatadas por meio da pesquisa aprofundada e da escrita cuidadosa de Lazaro Barreto.
“No jogo histórico da evolução e do declínio do arraial do Desterro, o autor recupera o movimento humano da região pelos nomes de pessoas, famílias, localidades e fazendas, tropeiros, viajantes, (...) seresteiros, rezadeiras (...). O memorial do Desterro cria a lembrança viva de um lugar no sertão em que tanta gente nasceu, brincou, trabalhou, sofreu, casou, criou família (...)”:  pois faço minhas as palavras do autor do prefácio. 
Neste o Memorial do Desterro uma parte do sertão mineiro ainda vive e continuará a viver por muito, muito  tempo.
Livro:  Memorial do Desterro
Autor:  Lázaro Barreto
Editado pela Diocese de Divinópolis
158 páginas - 1995
O autor mantém esse blog http://lazarobarreto.blogspot.com.br/ no qual mostra outras facetas além dessa de escritor.
* Transcopiado de www.antijornalismo.blogspot.com.br
publicado por animalsapiens às 20:32

Os chamados 'feriadões' no Brasil, quando se emenda de sexta a domingo, ou de sábado a segunda, criando três dias consecutivos para as tentativas de fuga do estresse urbano, dos problemas de transporte, convivência familiar, profissional ou de vizinhança, sempre deixam um saldo de problemas (e de mortes) que deveria ser levado mais a sério por aqueles que estão encarregados dos assuntos públicos e do bem-estar da população.

 

No entanto, vemos a comunicação social das Polícias trazendo dados estatísticos sobre aumento, diminuição ou 'leve queda' no número de acidentes de trânsito ou de homicídios; os políticos e gestores comparecem diante das câmeras com suas explicações mal ajambradas sobre as causas, e sobre o que será feito para se evitar que tais e quais coisas se repitam etc., isto é, nada! Nada que vá além do discurso do momento para uma formal prestação de contas à população indignada. Eles sabem que na semana seguinte tudo estará esquecido e as preocupações serão outras. Sobreviver é preciso!

 

Assim, criamos uma pseudo vida coletiva, uma política hipócrita e cínica, um mal hábito de fazer compromissos e promessas que - sabemos - não serão cumpridas a menos que haja muita pressão popular. Os 'feriadões' se tornam mais um problema do que uma solução para o estresse e preocupações do cidadão cansado da rotina na selva de pedra, preso na esperança de que saindo de casa para algum lugar turístico aliviará suas tensões.

 

Mas há problemas estruturais que não são resolvidos e que, pelo contrário, se agravam, além do óbvio: transporte ruim, insegurança, alto custo dessas viagens, os riscos inerentes ao trânsito intenso desses períodos, as improvisações para resolver problemas previsíveis, pois que são da rotina do ano após ano. Banaliza-se a vida e o bem-estar das pessoas, e prioriza-se tudo o que é da economia, tanto que as explicações da tormenta Sandy, que atingiu a costa leste do EUA, é dada em valores monetários, em custos financeiros.

 

- por Paulo Santos

publicado por animalsapiens às 08:56

02
Nov 12

Não é pequeno o contingente dos que acreditam no fim do mundo, Juízo Final, fim dos tempos e outras expressões que se equivalem e valem por toda a extinção da vida na Terra. Mas não faltam aqueles que ainda insistem num mínimo de bom senso, e procuram restabelecer um entendimento mais racional das coisas, lembrando que a vida nesse planeta tem seus ritmos e ciclos, mais ou menos longos, que muitos povos do passado - os maias entre eles - desenvolveram calendários bastante precisos, indicando fatos astronômicos por acontecer, que coincidem com as cíclicas tempestades solares, por exemplo, e que afetam nosso planeta de algum modo.

 

Há quem acredite que no próximo 21 de dezembro o fim do mundo finalmente acontecerá. O que parece mais evidente nisso tudo é o fato de que o processo de barbárie, de descivilização, chegou a tal ponto que já existe, sim, uma verdadeira torcida para que tudo isso acabe, e logo! As formas de se expressarem são varidas e vão das profecias maias, de Nostradamus, à crise climática, terceira guerra mundial, a passagem de um imenso planeta pelo nosso sistema, o Apocalipse de João, a segunda vinda de Jesus para resgatar os 'puros', a vinda de naves extraterrestres para salvarem outro tipo de 'escolhidos' da morte certa, diante da destruição global.

 

Que uma catástrofe nuclear ou climática podem comprometer seriamente a vida na Terra, não há dúvida! Que há 'guerras e rumores de guerras' (como aparece no capítulo 24 do Evangelho de Mateus), idem. Que a humanidade desenvolveu uma imensa capacidade de autodestruição e uma certa tendência ao autoextermínio, também é fato. Mas existem outros que apostam num tipo de sociedade mais viável, numa vida humana mais solidária e cooperativa, mas que devem ser construídas. As minorias sempre fizeram a diferença ao longo da história. Vejamos o que vem por aí!

 

- por Paulo Santos

publicado por animalsapiens às 09:09

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