Para falar de gente, de seres humanos, do bicho humano perfectível, apesar de tudo. Do Animal sapiens, mas a partir de agora do "Homo spiritualis", com sua fé e religiosidade muitas vezes confusa, gerando preconceitos, discriminações.

05
Nov 12

Resenha: Memorial do Desterro 

Ana Claudia Vargas
“A noção do tempo a escoar no próprio tempo, quando todos os dias começam no mesmo dia que nunca acaba” . (Lazaro Barreto)



 
Foto: Paulo Santos


Como seria contar a história de um lugar a partir das vivências das pessoas desse lugar? Como seria recriar o infindável mosaico de memórias e histórias que compõem a vida de todos nós?
Enquanto vivemos nosso dia-a-dia, não temos como pensar que estamos construindo histórias que depois poderão servir para formar o intrincado quebra cabeças de toda uma época.
Pois agora imagine um livro que conte a ‘história’ de um lugar a partir da vivência dos anônimos, daqueles que são a maioria, daqueles trabalham e constroem suas vidas anonimamente e que nunca terão seus nomes escritos nas pomposas letras dos livros que analisam o passado ‘de cima para baixo’.
Em tempos de celebridades instantâneas, do ficar famoso sem nenhum esforço ou mérito, de mediocridade ululante – parodiando o Nelson Rodrigues – encontrar um livro despretensioso (mas não superficial, muito pelo contrário) que narra a história de um lugar a partir das pessoas simples – seus afazeres, suas sabedorias, tristezas e alegrias -  é realmente um achado.
Um achado precioso: é assim esse livro “Memorial do Desterro”, do escritor mineiro Lázaro Barreto.
É dele que vou falar hoje na sessão Geraes de Minas porque a proposta aqui é também a de resenhar livros pouco conhecidos sobre a história das Minas Gerais.
O livro


O autor do prefácio Frei Bernardino Leers , de forma exata, escreve: “Muito livro de história é macro-história, virtudes e defeitos (...) de governantes, generais e nações (...). São como fotografias coloridas a distância, de panoramas grandiosos em que os detalhes desaparecem entre os bastidores gigantescos das montanhas e vales (...)”.
Pois nesse Memorial, o autor ilumina as reentrâncias dos vales e montanhas que contornam a região do Desterro – hoje o antigo arraial se chama Marilândia – e assim, revela as muitas histórias das famílias locais e de suas descendências; de lugarejos próximos que já mudaram de nome ou nem existem mais - mas  aqui, é bom lembrar, eles estão fervilhando de vida – das tantas pessoas que ‘coloriam’ esses lugarejos.
Os capítulos, que tem nomes como ‘Os Clãs e os Feudos”; “Uma Família”; “A Religiosidade Popular”; “A Geografia Humana” entre outros,  fazem com que nos sintamos íntimos das pessoas ali apresentadas. É como se entrássemos na casa de cada uma delas,  nas velhas fazendas nas quais moravam  e ouvíssemos  estórias contadas pelos tropeiros que paravam por ali de tempos em tempos, as rezas  e as serestas, e quase podemos ouvir também o rumorejo dos riachos e o barulho do vento nas árvores.
Mas o que torna este  livrinho deveras especial é o fato de o autor escrever contos carregados de poesia e lirismo para tornar o conteúdo mais leve e ainda mais interessante. 
Com nomes como “Dias, meses e anos”, “As partes verdes do sábado” ou “A natureza morta”; ele nos apresenta a história do Desterro por meio de personagens como o Zé Juca e o Tiãzinho, a Maria Euzébia e o João Gaiato; cada um deles talhado na sabedoria e na singeleza do povo do interior de Minas.
“Carradas de meses e dias, anos a perder de vista, vividos nos mínimos momentos da vigília que vai e volta à lucidez e ao sono, sempre ali, sentada no banco tosco de pedra, do lado de fora do casarão, à sombra das magnólias, a cabecear, a fitar nesgas da rua, a mascar o fumo de rolo temperado na cinza do borralho”. 
É assim que começa o conto “Dias, Meses e Anos”, numa arquitetura literária que me lembrou Autran Dourado no seu “Uma vida em segredo”.
Tem ainda a história do Zefolha, das irmãs Morais e de muitos outros personagens que o autor inventou para tornar ainda mais vívidas e quase reais, as histórias das muitas gentes que trabalharam, andaram pelos sertões, carpiram e plantaram, tiveram filhos e os batizaram, ergueram capelas e igrejas, enterraram parentes, fizeram folguedos e acreditaram em assombrações e capetas.
Assim  é este “Memorial do Desterro”, uma viagem no mínimo, diferente,  pela memória de um lugarejo que ainda existe e resiste  ali para os lados de Claudio e Divinópolis, um lugar como tantos outros dessa Minas Gerais e que, como tantos outros, tem particularidades que foram muito bem resgatadas por meio da pesquisa aprofundada e da escrita cuidadosa de Lazaro Barreto.
“No jogo histórico da evolução e do declínio do arraial do Desterro, o autor recupera o movimento humano da região pelos nomes de pessoas, famílias, localidades e fazendas, tropeiros, viajantes, (...) seresteiros, rezadeiras (...). O memorial do Desterro cria a lembrança viva de um lugar no sertão em que tanta gente nasceu, brincou, trabalhou, sofreu, casou, criou família (...)”:  pois faço minhas as palavras do autor do prefácio. 
Neste o Memorial do Desterro uma parte do sertão mineiro ainda vive e continuará a viver por muito, muito  tempo.
Livro:  Memorial do Desterro
Autor:  Lázaro Barreto
Editado pela Diocese de Divinópolis
158 páginas - 1995
O autor mantém esse blog http://lazarobarreto.blogspot.com.br/ no qual mostra outras facetas além dessa de escritor.
* Transcopiado de www.antijornalismo.blogspot.com.br
publicado por animalsapiens às 20:32

Os chamados 'feriadões' no Brasil, quando se emenda de sexta a domingo, ou de sábado a segunda, criando três dias consecutivos para as tentativas de fuga do estresse urbano, dos problemas de transporte, convivência familiar, profissional ou de vizinhança, sempre deixam um saldo de problemas (e de mortes) que deveria ser levado mais a sério por aqueles que estão encarregados dos assuntos públicos e do bem-estar da população.

 

No entanto, vemos a comunicação social das Polícias trazendo dados estatísticos sobre aumento, diminuição ou 'leve queda' no número de acidentes de trânsito ou de homicídios; os políticos e gestores comparecem diante das câmeras com suas explicações mal ajambradas sobre as causas, e sobre o que será feito para se evitar que tais e quais coisas se repitam etc., isto é, nada! Nada que vá além do discurso do momento para uma formal prestação de contas à população indignada. Eles sabem que na semana seguinte tudo estará esquecido e as preocupações serão outras. Sobreviver é preciso!

 

Assim, criamos uma pseudo vida coletiva, uma política hipócrita e cínica, um mal hábito de fazer compromissos e promessas que - sabemos - não serão cumpridas a menos que haja muita pressão popular. Os 'feriadões' se tornam mais um problema do que uma solução para o estresse e preocupações do cidadão cansado da rotina na selva de pedra, preso na esperança de que saindo de casa para algum lugar turístico aliviará suas tensões.

 

Mas há problemas estruturais que não são resolvidos e que, pelo contrário, se agravam, além do óbvio: transporte ruim, insegurança, alto custo dessas viagens, os riscos inerentes ao trânsito intenso desses períodos, as improvisações para resolver problemas previsíveis, pois que são da rotina do ano após ano. Banaliza-se a vida e o bem-estar das pessoas, e prioriza-se tudo o que é da economia, tanto que as explicações da tormenta Sandy, que atingiu a costa leste do EUA, é dada em valores monetários, em custos financeiros.

 

- por Paulo Santos

publicado por animalsapiens às 08:56

Novembro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9

12
15
16

18
19
21
24

26
28


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
mais sobre mim
pesquisar
 
links
blogs SAPO