Para falar de gente, de seres humanos, do bicho humano perfectível, apesar de tudo. Do Animal sapiens, mas a partir de agora do "Homo spiritualis", com sua fé e religiosidade muitas vezes confusa, gerando preconceitos, discriminações.

19
Out 12

Minas & Gerais

 

Arte mineira:

No jardim das esculturas

Ricardo Costa: um artista reinventando no interior de Minas.

 

Por Ana Claudia Vargas *

Dores do Indaiá-MG

Para Via Fanzine

17/10/2012

 

 

Ricardo Costa e uma de suas obras em pedra bruta.

 

Cenário cerrado

 

O centro-oeste mineiro é uma região de poucas árvores frondosas, vastos campos áridos, açudes, córregos e horizontes de cores que oscilam entre o verde musgo e o azul acinzentado. Também há por aqui muitos cupinzeiros e apesar da ausência das grandes árvores, há (ainda) muitas outras de porte médio, como os ipês, aquelas espécies aparentemente feiosas, de galhos retorcidos e cascas grossas como é, por exemplo, o araticum, árvore que produz um fruto saboroso e muito apreciado por estas bandas.

 

É uma paisagem de savana – naturalmente seca –, mas apesar ou justamente por isso, trata-se de uma região fértil em espécies rasteiras (gramíneas e arbustos) e a biodiversidade destes campos é constantemente alardeada pelos biólogos e demais conhecedores da natureza.

 

E por aqui há ainda o verdete, um tipo de rocha rica em potássio, de belíssima coloração esverdeada – como o nome sugere - que aparece, inesperadamente, para alegria daqueles que apreciam esses verdadeiros ‘presentes’ da natureza, sobre os rochedos e as muitas estradinhas que quase sempre, terminam em córregos e vales.

 

Assim, depois de caminhar pelos campos de árvores baixas e retorcidas, a gente pode encontrar depois de uma curva, atrás de um jacarandá (outra árvore comum por aqui) ou de um angico, uma estrada toda esverdeada e isso é algo que ilumina a paisagem, o dia e a vida, enfim.

 

Mas, como diria o poeta, ‘é preciso ter olhos de ver’ para apreciar a beleza seca, retorcida e esverdeada desses campos, dessas árvores e desses horizontes azuis acinzentados; e o escultor Ricardo Costa, um artista que nasceu na região, sempre teve desde muito cedo, estes raros ‘olhos de ver’.

 

 

Monalisa de Ricardo Costa aprecia refrigerante.

 

Pescarias imaginárias

 

Foi ainda na infância, quando morava numa fazenda, que o menino Ricardo começou a enxergar as belezas locais. Ele conta que desde sempre gostava muito de desenhar vacas, bois e ‘tudo mais’ com carvão, o material mais fácil de encontrar porque aqui ainda há, nas casas da cidade e nas roças, muitos fogões de lenha, daí a presença farta de carvão.

 

Pode-se dizer, portanto, que foi assim que tudo começou e por tudo entenda-se uma carreira que hoje é feita a partir do manuseio de outras matérias primas, digamos, mais refinadas, como a argila, a madeira e claro, o precioso e tão bonito, verdete.

 

Ricardo Costa, como todo bom mineiro, não é de falar muito; e como todo artista que se preze é um eterno curioso e observador nato. Diversificou de tal forma sua arte e em seu ateliê, há oratórios e esculturas de tamanhos variados. São muitos santos, madonas, escravos, medusas, gárgulas, profetas e até um soldado romano em tamanho natural, até telas nas quais retrata a paisagem tipicamente interiorana da cidade na qual vive, Dores do Indaiá, com aproximadamente 13 mil habitantes e situada a 250 km de Belo Horizonte.

 

 

Algumas esculturas de Ricardo Costa.

 

Suas paisagens compõem praças bucólicas, festas populares, estradas que se perdem entre arvorezinhas. As ruas simplórias e as pessoas que também fazem parte de um cenário tão tipicamente mineiro, como o vendedor de picolé, que já deixou de existir, mas está devidamente registrado em sua pintura, expressa por sua visão única, uma imagem toda especial e memorável. E, por falar em visão única, Ricardo também faz uma releitura pós-moderna do ícone de Da Vinci, a Monalisa, segurando graciosamente, uma Coca- Cola e isso é bem perturbador como a arte deve ser.

 

Admirador confesso de Caravaggio – ele foi à exposição que esteve antes na Casa Fiat, em Belo Horizonte –, Michelangelo e Aleijadinho, Ricardo nos oferece uma visão artística renovada, colorida e singular que se fragmenta em entalhes, corpos e rostos de santos. Dilui-se na pedra que compõe as faces de anjos e profetas; desliza nos pinceis que eternizam a geografia cotidiana e quase recatada da região, os morros, as pessoas e as praças. E por fim, representa, sobretudo,  de maneira  luminosa, os muitos modos de viver das gentes e porque não, das árvores, matas e córregos desse tão bonito cerrado mineiro.

 

 

O criador e as suas criaturas.

 

Quando perguntado o que seria a ‘arte’ para ele – essa pergunta inútil e reconheço: clichê –, ele diz que é como se estivesse em uma pescaria: é preciso silêncio e concentração quando está esculpindo ou pintando; é preciso se ‘esquecer da vida’ para que seja possível retornar, depois, com o resultado de sua ‘pescaria imaginária’.

 

E para nós que estamos na superfície, a impressão é exatamente esta: é como se após um mergulho em águas esverdeadas e profundas, ele retornasse com suas tantas e variadas preciosidades.

 

* Ana Claudia Vargas é jornalista e colaboradora de Via Fanzine.

   Seu blog é http://antijornalismo.blogspot.com.br.

 

- Fotos: Arquivo de Ricardo Costa.

 

Extra:

Visite o portal oficial de Ricardo Costa

 

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publicado por animalsapiens às 11:59

18
Out 12

http://antijornalismo.blogspot.com.br/2012/05/e-minas-uma-cronica-desenredada.html

 

publicado por animalsapiens às 13:36

"Se Auschwitz existiu, Deus não existe"; essa certamente é a mais melancólica e desesperadora frase do livro que virou filme: A Trégua, do escritor italiano Primo Levi (Turim, 31 de julho de 1919 — Turim, 11 de abril de 1987), um dos sobreviventes desse campo de concentração, conservado como história-memória de coisas que não deveriam mais acontecer. Mas acontecem! Ainda temos a Faixa de Gaza e outras regiões no mundo que são mais ou menos como campos de concentração, de refugiados, tal como as comunidades pobres chamadas de 'favelas', quase sempre associadas, equivocadamente, a locais de criminalidade e narcotráfico. 

 

Mas, e os presídios brasileiros, sempre superlotados? E as escolas, um tanto como centros de confinamento, onde os alunos são tratados como códigos de barras? E certos hospitais com gente deitada pelo chão ou em macas improvisadas? Se lá houve a industrialização da morte, hoje vemos a banalização da morte e da própria vida. E o que virá depois? Quando haverá tempo e interesse reais pela tolerância, solidariedade e para a compaixão?

 

publicado por animalsapiens às 12:00

16
Out 12

Pelo andar da carroça há muita gente torcendo para que o mundo acabe, de preferência em 21 de dezembro próximo. Que o mundo está feio e a sociedade doente, não há dúvida. Mas de onde sai essa torcida mórbida pelo fim do mundo? Não seria melhor ver o que e onde se pode melhorar? mudar? renovar? O milenarismo caminha ao lado do sebastianismo, isto é, o fim do mundo e um salvador para o mundo.

 

A ditas profecias maias não vão além de cálculos astronômicos muito bem feitos, e Nostradamus fez interpretações do Apocalipse; se as coisas acontecem ou não conforme as previsões, depende de como anda nosso entendimento e aceitação da nova física quântica, com suas variáveis e probabilidades. Afinal, como escreveu certo poeta: não se pode tocar uma flor sem incomodar uma estrela. Se tudo está ligado a tudo, uma pequena mudança algures pode mudar o rumo da história ! Será ?

publicado por animalsapiens às 12:25

14
Out 12

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Seção “Geraes de Minas”

 

“Minas principia de dentro para fora e do céu para o chão...” (Guimarães Rosa no conto “Minha Gente’, do  livro “Sagarana”)

Foi assim: de tanto ler aqui e ali, bobagens sobre Minas Gerais, de tanto conversar com amigos sobre o que viria a ser as “Minas Gerais” – para além das chatíssimas propagandas turísticas, dos comerciais mostrando as mesmas imagens¹ (Ouro Preto, “Beagá”, montanhas, Inhotim, gente de chapéu de palha ou aquela falsa modernidade de prédios espelhados que se vê de Uberaba a Divinópolis), para muito além das mais chatíssimas ainda notas sociais que ainda existem nos jornalões mineiros² (fulano de sobrenome X que casou com sicrana de sobrenome Y; sicrana que voltou da Europa e abre um negócio no  bairro X; aquelas tentativas frustradas (felizmente) de fazer com que o jeito ‘mineiro’ se molde ao que Rio e São Paulo esperam (vocês pensam que isso é bobagem mas não é não!), para além, enfim, do que existe de Minas na  velha imprensa que pertence às famílias X e Y, aquelas que não tem nenhum interesse em mostrar as histórias e estórias de uma Minas que existe – e resiste – nas ruas empoeiradas, nos sotaques carregados, no jeito de viver, enfim, dessas pessoas que moram nos lugares mais distantes (ou não), que ainda exercem profissões que já se extinguiram; alguns, os mais velhos, aqueles que sequer leem jornais porque  na maioria das vezes, não puderam aprender a ler – quanta gente assim ainda há em Minas – e por aí afora.

E, em meio a tudo isso, outra Minas há muito já deu o ar de sua (des?)graça: é aquela pós-moderna (um termo inadequado mas necessário), aquela que vivencia os efeitos da tal globalização e é formada por milhares de jovens que são filhos e netos da ‘geração das profissões em fase de extinção’ (os marceneiros – como meu pai – os alfaiates, as costureiras e quitandeiras...); são jovens que, apesar da (alardeada?) facilidade de se continuar os estudos e melhorar de vida  ainda não tem acesso (por razões variadas e específicas) a uma vida melhor do que a que tiveram seus pais e avós.  

Muitos deles sonham em ir para os EUA ou para a Bélgica (agora parece ser o ‘país da vez’) para fazer faxina  ou o que quer que seja.³ Eu sempre me identifiquei muito com a história dos que não terão sua história contada em lugar nenhum: nunca me reconheci – nem a nenhum dos meus – quando lia (leio) o que a imprensa mineira publicava (e claro: continua publicando), mas para além das minhas muitas limitações teóricas para tratar de temas que poderiam ‘explicar’ porque as coisas em Minas são dessa forma (e agora me vem à cabeça a imagem do Aécio Neves cutucando a presidenta Dilma com aquelas bobagens que ele sabe dizer tão bem sobre ‘ser mineiro’, como se ele soubesse o que vem a ser isso...é irônico); nessa seção eu espero poder colocar textos, fotos, notícias  da ‘outra’ Minas Gerais, aquela que se parece mais com a que eu gosto e cresci admirando, aquela que é feita de uma simplicidade que não exclui a busca por outros modos de pensar (para além dos academicismos ou das visões superficiais), aquela que é feita por gente de todas as classes, gente que não faz nenhuma questão de se dizer dessa ou daquela família, desse ou daquele sobrenome e/ou partido político e por aí afora.

Para terminar: sua leitura, comentário e contribuição será muitíssimo bem vinda! Peço que perdoe a confusão do texto acima, com o tempo eu espero ir afinando as muitas ideias que gostaria de discutir aqui.

[...]


www.antijornalismo.blogspot.com.br - por Ana Cláudia Vargas

publicado por animalsapiens às 13:21

11
Out 12

Houve época em que se levava as coisas a sério. Saudosismo? Nostalgia? Nada disso! Uma constação de que nesse mundo que se liquefaz dia após dia, há cada vez menos espaço para o humano. A ditadura das marcas, da moda, do espetáculo, do consumo ... O que vai restar de nossa civilização tão técnica e tão pobre? Vivemos num mundo onde máquinas e informática tornam as coisas mais rápidas, mas não melhores. Os relacionamentos se enfraquecem, o diálogo desaparece ... No futuro seremos conhecidos como os seres da Idade do Plástico.

 

Seres carregados e dependentes de quinquilharias eletrônicas, e ocos, vazios, cadáveres que respiram; seres sem metas, propósitos, ... a certeza de nossa finitude já nos fez usar melhor nosso tempo e recursos. Hoje as pessoas fogem da consciência dessa finitude, preenchendo seu lugar com coisas e comportamentos bizarros. Uma boa parte perdeu-se de si mesma e não parece interessada em se reencontrar.

 

Tudo indica que uma nova civilização vem por aí, passando por cima dessa modernosa vida vazia que nos é imposta por um modelo econômico diabólico, que fez da sociedade um subprodudo da economia.

publicado por animalsapiens às 12:50

09
Out 12

'Só sei que há mistérios demais, em torno dos livros e de quem os lê e de quem os escreve; mas convindo principalmente a uns e outros a humildade. A fazedora de velas, queira Deus o acabe algum dia, quando conseguir vencer um pouco mais em mim o medo miúdo da morte, etc. Às vezes, quase sempre, um livro é maior que a gente.'

 

Guimarães Rosa, Tutaméia. Sobre a escova e a dúvida.

publicado por animalsapiens às 12:44

07
Out 12

Num país como o Brasil, onde o voto é obrigatório, o 'sagrado direito democrático' ao voto está mais uma vez assegurado para o dia de hoje. Será que, uma vez cumprido o rito, alguma coisa efetivamente muda para melhor? O atual modelo político permite mudanças ou apenas garante mais do mesmo, e dos mesmos ? Por que a política brasileira é vitalícia e hereditária? Vemos os mesmos candidatos, ou seus descendentes, disputando as vagas num processo que lembra os títulos de nobreza de outros tempos. O mecanismo eleitoral facilita a passagem do título com o verniz da escolha.

 

Com isso, vivemos uma crise de credibilidade dos políticos e da própria política. Quem está no parlamento não quer mudanças, pois essas só dificultariam a sua permanência no poder. A retória democrática, apoiada pela chamada grande mídia, faz parecer que existe possibilidade real de mudanças nos cargos, de modo que os antigos clãs políticos finalmente sejam substituídos por uma nova geração.

 

Vamos cumprir o rito, mas não convém ter esperanças de mudanças reais e efetivas no quadro geral da política nacional. Os mesmos, ou seus sucedâneos, estarão lá, ocupando os cargos para darem continuidade e manutenção nas engrenagens do poder.

 

publicado por animalsapiens às 11:28

05
Out 12

SARAMAGO: ESTE MUNDO DA INJUSTIÇA GLOBALIZADA


“Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência

José Saramago

publicado por animalsapiens às 17:23

03
Out 12

 

'A linguagem das pedras nos corações dos homens' - Com a qualidade jornalística  Via Fanzine

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Quilombo do Rei Ambrósio

 

Resistência negra:

Um reino africano no Centro de Minas? - Parte 2

No início do século XVIII, surgiu mais ou menos na região centro-oeste da então

Capitania de Minas Gerais, uma confederação de quilombos que, no conjunto,

passou a ser conhecida como Quilombo do Rei Ambrósio, ou do Campo Grande.

 

Por Paulo Roberto Santos*

De Divinópolis-MG

Para Via Fanzine

06/09/2012

 

 

No interior de Minas, o povoado de Catumba, na região de Itaúna-MG ainda guarda vestígios da antiga presença de escravos.

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Por volta de 1760, com o fim da confederação dos quilombos espalhados do rio das Mortes ao Abaeté, e de Ibiá a Itaguara, presumíveis indicadores dos limites do quilombo do Rei Ambrósio (ou do Campo Grande), houve avanços de bandeirantes (grupos paramilitares ou milícias, acompanhadas por pessoas de todo o tipo, de aventureiros a saqueadores), em direção ao oeste de Minas.

 

Já havia pequenos povoados pela região, formados anteriormente pelos fugitivos da guerra dos emboabas, ocorrida algumas décadas antes, em 1708-09, com a derrota, fuga ou morte dos paulistas. Esse episódio deu causa à criação da Capitania de Minas Gerais, fazendo os paulistas se voltarem mais para regiões interioranas e em direção ao atual Paraguai e Mato Grosso.

 

Enquanto isso, nas Gerais, o ouro escasseava rapidamente. A Coroa portuguesa precisava dos recursos das colônias para quitar suas dívidas para com a Inglaterra, e para os manufaturados que até então - já com a nascente revolução industrial -, ainda não produzia.

 

É nesse contexto de empobrecimento rápido e generalizado que negros forros, fugitivos, remanescentes de etnias nativas, brancos pobres ou ricos naturais, vão se defrontar com um episódio de truculência e arbítrio que ficou conhecido como a Conjuração Mineira. A conspiração que envolveu membros de todas as classes, clérigos inclusive e gente da região principalmente, mas também alguns portugueses, que tinha como propósito principal a libertação da Capitania de Minas do governo português.

 

Havia o apoio de paulistas e fluminenses, mas, principalmente, de baianos e pernambucanos. Os governos dos Estados Unidos, França e Inglaterra prometeram apoio e reconhecimento à nova nação. Se não houvesse a delação e prisão dos principais condutores do movimento, havendo sucesso, certamente, seria o estopim para as lutas de emancipação das demais Capitanias.

 

É preciso citar que, ao longo do século XVIII, dezenas de milhares de negros africanos foram trazidos para a Capitania de Minas Gerais, para o trabalho nas minas e em serviços diversos. Não se deve pensar nos negros africanos, principalmente nos sudaneses, como povos atrasados. Existiam reinos prósperos, que faziam comércio com a Índia e entre si. Os sudaneses, em sua maioria, falavam e escreviam em árabe, e trazidos ao Brasil eram, muitas vezes, mais alfabetizados que os seus senhores.

 

Conhecedores da metalurgia, da pecuária, de plantas medicinais, de práticas de cura ancestrais, das artes da guerra e da paz, quando era o caso, os africanos eram superiores aos indígenas, que ainda viviam na idade da pedra polida, da cerâmica, da caça, pesca e coleta. Por essa razão foram substituídos na mão de obra ao longo dos séculos.

 

 

Entre os vestígios deixados pelos escravos estão valas cavadas e também muros feitos de pedras da região.

 

Redutos remanescentes

 

Da confederação de quilombos que constituiu o reino do Rei Ambrósio, restou uma quantidade imensa de redutos remanescentes que lutam, até hoje, pelo reconhecimento de suas terras, cobiçadas por fazendeiros que ainda os veem como mão de obra barata, quando não ainda como escravos. Aos poucos, o atual Governo Federal vem resolvendo essas demandas em favor dos quilombolas, não sem a resistência dos latifundiários.

 

O quilombo se foi, mas sua influência ficou até hoje. A culinária mineira cheira a improviso. Além disso, o uso do fubá de milho, da farinha de mandioca e do polvilho, deu novos pratos à cultura nacional. Quem nunca ouviu falar, ou já experimentou, o pão de queijo, resultado da escassez de trigo naqueles tempos idos, e a invenção do queijo mineiro, feito com leite cru?

 

No linguajar, em Minas como em todo o Brasil, ficamos com os adjetivos carinhosos aprendidos com as negras que cuidavam e davam seu próprio leite aos filhos dos senhores: benzinho, amorzinho… E tantas outras expressões de carinho hoje tão comuns.

 

Com a chegada ao Brasil da família real portuguesa, em 1808, fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte, o país passa a ter o português como língua obrigatória, fazendo com que o nhengatu (fala boa, em tupi) fosse aos poucos abandonado. Essa língua, criada pela inventividade dos padres jesuítas do século XVI, numa mistura de tupi com português, foi a língua comum por mais de dois séculos. Foi também usada pelos bandeirantes - em sua maioria, mameluca, e não branca, como divulgado por décadas na historiografia oficial.

 

Um pouco desse linguajar arcaico reaparece nas obras do escritor mineiro Guimarães Rosa, em todas as suas obras, mas particularmente no “Grande Sertão: Veredas” e em “Sagarana”. Um português - ou talvez seja melhor dizer, mineirês -, que dificilmente será entendido pelas gerações futuras, perdendo-se, assim, uma das maiores belezas literárias do país.

 

Controvérsias, lacunas, dúvidas e incertezas à parte, eis uma página de grande interesse da história de Minas Gerais, e que vem sendo, lentamente, reconstituída por profissionais e amadores.

 

- Clique aqui para voltar a parte 1

 

* Paulo Roberto Santos é professor e sociólogo, seu blog é http://animalsapiens.blogs.sapo.pt/.

 

-Fotos: Charles AquinoIshimoto / Itaúna em Décadas.

 

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- Extras: 

   Algumas sugestões de leitura:  

- BARRETO, Lázaro. Memorial do Desterro. Divinópolis, Diocese de Divinópolis, 1995.

- FIÚZA, Rubens. Do São Francisco ao Indaiá. Juiz de Fora, Liberdade Livraria, 2003.

- Disponíveis em MG Quilombo.

- Viste o portal MG Quilombo

    Vídeo - entrevista com o professor Félix Rodrigues (RTP/Portugal).

   Açores: encontradas sepulturas de 2 mil anos (TVI/Portugal).

 

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publicado por animalsapiens às 15:05

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