Para falar de gente, de seres humanos, do bicho humano perfectível, apesar de tudo. Do Animal sapiens, mas a partir de agora do "Homo spiritualis", com sua fé e religiosidade muitas vezes confusa, gerando preconceitos, discriminações.

03
Nov 11

Desenvolvimento e crime

Algumas conclusões de um relatório do escritório das Nações Unidas para Drogas e Crimes, lançado este mês e intitulado "Estudo global sobre homicídios", contendo pequenas referências a Moçambique: países com grandes disparidades de renda estão quatro vezes mais sujeitos a serem alvo de crimes violentos do que sociedades mais equitativas; crescimento económico contribui para evitar crimes violentos; criminalidade crónica é ao mesmo tempo causa e consequência da pobreza, da insegurança e do subdesenvolvimento; criminalidade diminui as possibilidades de negócios, deteriora o capital humano e desestabiliza a sociedade; quedas repentinas na economia podem elevar as taxas de homicídio; políticas de prevenção ao crime devem ser combinadas com desenvolvimento económico e social e governabilidade democrática. Aqui. Para traduzir, aqui. Se quiser ampliar o mapa, clique sobre ele com o lado esquerdo do rato.


http://www.oficinadesociologia.blogspot.com/

publicado por animalsapiens às 17:09

Por: Paulo R. Santos

 

O Estado caro faliu? Parece que sim. Principalmente o Estado (neo)liberal-burguês, substituto garantidor dos privilégios da antiga nobreza, parece que perdeu o poder justamente por não dividir, por não cumprir promessas, por afastar de seu ideário, a solidariedade, a compaixão e a tolerância.

Estamos de volta aos anos que antecederam à França de 1789? Ou aos encontros secretos dos inconfidentes mineiros nos anos anteriores a 1789 (para não ir mais longe)? Pode ser. Os encontros já não são noturnos nem secretos. A luta de classes volta a ser visível nas ruas das grandes cidades, onde a guerra urbana gradualmente se instala e se naturaliza. Os pobres, como antes de 1789, não são mais tão dóceis! As cidades deixaram de ser ambientes de convivência para serem locais de competição, medo e rivalidade.

Enquanto isso, um Estado paralelo - ou um poder paralelo -, vai se compondo e se firmando na base da força, do medo, da chantagem, do suborno e da morte. As leis do Estado formal são lentas, ineficientes, parciais, e a paciência dos mais pobres e dos injustiçados vai chegando ao fim.

O poder paralelo não nasce de uma conspiração contra o Estado legal (nem sempre legítimo). Ele surge, cresce, se espalha e se consolida em cima do desespero, da incerteza, do medo, das carências, das ausências, da ignorância, da doença, ... das muitas promessas não cumpridas.

O confronto parece inevitável. De um lado o Estado que, segundo Max Weber, detém o monopólio do uso exclusivo e legítimo da força. Do outro, o povo assustado e desprotegido, além de desarmado. O triângulo de forças de se fecha com o poder paralelo, sociopata, bem armado, rápido e cruel nas decisões, pragmático, e já quase onipresente em terras brasileiras.

publicado por animalsapiens às 17:04

Texto de Cartas entre amigos. (quarta carta) - autor não citado.

 

 
Colcha de retalho
 
 
Trabalho artesanal que realiza a proeza de fazer novo o que é velho.
Nossas memórias são como pequenos retalhos que recuperam o viço da beleza quando postos ao lado dos outros.
O processo de uma colcha de retalhos é muito interessante. Requer sensibilidade para perceber os contrastes que serão bonitos quando, ao final, forem vistos no contexto do todo.
Esta forma de artesanato trabalha a partir de tecidos que tiveram histórias desconhecidas. São oriundos das mais diversas situações. Tecidos de festas, tecidos de morte, tecidos do cotidiano, todos encontrando o destino de mãos de mulheres, (pessoas) que os costuram em trama única. Mulheres que de maneira ritual e sensível, reconciliam as diferenças do mundo. O tecido pobre, opaco, ganha vida ao ser costurado ao lado do tecido sedoso e vibrante. Tecer colchas de retalhos é como realizar um ritual. É descobrir os caminhos que os próprios tecidos sugerem. Há uma notícia escondida em cada cor. Há um sentimento abscôndito em cada retalho, coisas que aos tempos idos pertencem. A vida se registra com generosidade sobre as coisas. Eu creio nisso. É como se houvesse uma memória em cada fragmento da materialidade que nos rodeia. Sei que isso fere alguns princípios para muitos, mas não importa. Busco socorro na conclusão sugestiva de uma frase antiga e atual argumentada de forma brilhante: "O coração tem razões que a própria razão desconhece".
É verdade. A razão humana não pode abarcar todos os mistérios que nos envolvem. Experimento isso o tempo todo.
A vida me afeta.
A vida me provoca.
Adentro algumas realidades que não podem ser dissecadas a partir dos princípios da razão científica. O que delas sorvo, de alguma maneira fica armazenado em mim. São meus retalhos. Retalhos de alegria, retalhos de tristeza, retalhos de esperança, retalhos de desespero.
Vez em quando eu preciso costurá-los também. Uso a mesma técnica das mulheres que tecem colchas.
Escolho os retalhos tristes e procuro dispersá-los no meio de retalhos felizes.
Eles não deixam de existir, mas ganham um novo aspecto. Perdem o poder opressor que possuíam quando eram solitários. Esse ritual me recorda o conceito de Redenção, tema tão caro aos contextos religiosos. Redimir é tirar o outro de situação desfavorável e elevá-lo. O retalho triste ficará menos triste ao ser posicionado ao lado do retalho feliz.
O encontro gera o equilíbrio. É como a dissonância na sinfonia. A nota triste é utilizada para preparar a chegada da alegria.
As regras da vida estão esparramadas pelos quatro cantos do mundo. Colchas e sinfonias podem servir como manual de instrução para uma vida melhor. O que precisamos é observar melhor o mundo que nos cerca. Há ritual em tudo o que é vivo.
Só precisamos descobrir o movimento do rito e nele entrar. É como se houvesse uma música sendo entoada. Precisamos ouvir bem o que ela nos sugere.
Tenho visto muitas pessoas infelizes pela vida. As causas costumam ser as mesmas. Estão dançando fora do ritmo. Não escutaram bem a melodia que o tempo presente está lhes proporcionando.
Ignorar a ritualidade da vida é o mesmo que quebrar o seu encanto. Fazemos isso o tempo todo. Nossas pressas contemporâneas não nos permitem demoras. Estamos sempre atrasados. Mas o rito nos pede calma. Nasce o impasse. De alguma forma temos que ceder. Ou entramos no ritmo do rito, ou o ignoramos.
E dessa forma plantamos o futuro.
Hoje posso dizer que a pressa não valeu a pena.
Corri atrás do mundo que estava distante, mas me esqueci de viver o mundo que estava sob meus pés.
Só o rito pode bordar a rotina e revesti-la de beleza. A rotina de uma vida feliz é o sonho de todos nós. Mas como é possível descobrir este caminho, já que a vida é o lugar das contradições?
O mundo está cheio de sofrimentos e tragédias que nos enchem de indignação. Elas são universais e particulares. Os terremotos são diversos. Assolam solos, mas assolam almas. O sofrimento do mundo é questão que jamais poderemos esgotar em compreensão. Sobre suas razões temos indícios. O mundo criado é naturalmente limitado. Este é um deles. O limite é a mola propulsora que faz o sofrimento ganhar movimento. O que não podemos é perder a esperança. Sofridos ou felizes, o nosso destino deve ser um só: a vida.
Esse é o comprometimento que poderá fazer a diferença. Quanto mais estivermos comprometidos com a vida, maior será nossa possibilidade de diminuir os efeitos do sofrimento dos nossos dias. Diante dos contratempos, temos a possibilidade de assumir duas posturas. Podemos nos desesperar, ou podemos nos encher de novos motivos para o recomeço.
Esse é o código que diferencia um ser humano de todos os outros: a capacidade de recomeçar.
Nunca é tarde para costurar o retalho triste na trama da nossa história. O que não podemos é permitir que ele prevaleça deslocado, gritando suas mágoas, privando-nos da alegria nossa de cada dia.
Há sempre um alinhavo possível. Por mais frágil que seja, ele sempre valerá a pena. Ele é a garantia da continuidade. Ele é a certeza de que nada do que vivemos poderá ficar de fora de nossa colcha final.
 
publicado por animalsapiens às 10:36

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