Para falar de gente, de seres humanos, do bicho humano perfectível, apesar de tudo. Do Animal sapiens, mas a partir de agora do "Homo spiritualis", com sua fé e religiosidade muitas vezes confusa, gerando preconceitos, discriminações.

05
Fev 13

Geraes de Minas

   Confidências entre inconfidentes

Paulo R. Santos*
                                                                                 
 
Ouro Preto: possivelmente, o cenário dessa conversa tão sigilosa quanto reveladora...
(Foto: Dani Vargas)



                              
Lá pelos idos de novembro de 1788, um diálogo dessa natureza pode ter ocorrido diante dos acontecimentos que se precipitavam na Capitania das Minas Gerais:
- O senhor bem sabe dos riscos que todos os envolvidos correm? Vossa Mercê tem ciência de que nem os irmãos maçons poderão livrar todas as cabeças da forca se houver delação?
- Sim, meu caro capitão! Há entre nós os verdadeiros idealistas, mas não somos ingênuos ao ponto de não suspeitar da existência de infiltrados no movimento. Já sabemos de espiões franceses, holandeses e ingleses acompanhando tudo, à espreita de oportunidades de atenderem aos interesses de seus países.
- E nada será feito, Dr. Tomaz? Sabemos que o povo se levantará se for declarada a Derrama (cobrança compulsória dos impostos atrasados na Capitania), mas há quem desconfie dos portugueses e dos grandes devedores envolvidos no movimento. Será que se o cerco  apertar poderemos contar com o Silvério, com o Pamplona, com o Maniti e o Malheiros? Cada um tem interesses próprios, dá para perceber nas reuniões !
- Quanto a isso, penso eu, nada podemos fazer caro capitão, a não ser com a vigilância dos demais sobre eles e com o silêncio até o ‘dia do batizado’ (senha combinada para o início do levante, isto é, quando o governador da Capitania desse a ordem final para a cobrança da Derrama). Mas não me agrada a falação aberta do Tiradentes sobre o levante, conclamando Deus e o mundo para a luta armada que se seguirá. Ele está a por o baraço no próprio pescoço e no pescoço dos demais envolvidos!
- Ele é um entusiasta, doutor, eu o conheço bem! Não vai ficar calado nem que o amarrem. Mas o senhor tem razão quanto à prudência nesses casos. Poucas vezes saí das Gerais, mas sei do que ocorreu nas ex-colônias inglesas na América do Norte e o que está a acontecer na França. A coroa portuguesa não terá misericórdia se o levante daqui for descoberto! Vai fazer dele um exemplo para as demais capitanias e colônias ! Eu não confio no Pamplona nem no Malheiros.
- Há que se vigiar, capitão. Os geralistas (gentílico anterior a mineiro), porque nasceram nessas terras, têm com ela um vínculo natural e profundo. Muitos ainda falam somente o nhengatu (língua criada pelos padres jesuítas - mistura de português e tupi -, e que foi muito usada como língua geral até a vinda da Corte para o Brasil). Raízes que pretendem manter para seus descendentes. Eu mesmo não nasci na colônia, mas a amo mais que a Portugal ...
- Mesmo entre os geralistas há os que vacilam. Muitos sabem da guerra dos emboadas, da insurreição de Felipe dos Santos e do morro da queimada, do morticínio dos índios e da perseguição aos quilombolas, principalmente do fim do quilombo do Campo Grande. Há medo no ar e cheiro de morte, Dr. Tomaz. Muitos se preocupam com suas famílias, parentes e amigos, filhos e filhas, mães ...
- Já combinamos negar tudo, capitão, caso haja delação da conjura. Se a negação conjunta não funcionar, os cabeças deverão minimizar o assunto e dizer serem conversas de tabernas, ocas e sem propósito, assuntos de gente bêbada, ... Ainda assim há risco, pois o governador pode não aceitar e determinar investigações, se já não o está a fazer... Aqui é o estopim, caro capitão, mas Pernambuco, Bahia, Rio e mesmo São Paulo estão a esperar os acontecimentos iniciais a partir daqui!
- Há sempre um alto preço a se pagar pela liberdade, Dr. Gonzaga. Os que como eu, aqui nasceram e cresceram estão cansados de trabalhar e pagar impostos tão altos, e sem direito sequer a produzirem aqui o que precisam ... nem mesmo sal ou tecidos comuns ... Comprar de Portugal o que os ingleses produzem é o fim!
- Volte para sua fazenda, capitão, e em suas andanças fique atento a qualquer movimentação estranha ou conversa suspeita. Envie um alerta indireto em poucas linhas, e através de um mensageiro de sua confiança, endereçado a mim ou ao Dr. Cláudio Manoel. Por agora, vou arejar um pouco conversando com minha noiva, minha doce Marília !
Sociólogo e editor do blog http://animalsapiens.blogs.sapo.pt/
* Transcopiado de: www.antijornalismo.blogspot.com.br - Ana Cláudia Vargas
publicado por animalsapiens às 16:05

10
Nov 12

De: "blog do ozaí" <comment-reply@wordpress.com>
Data: 10 de novembro de 2012 00:51
Assunto: [Novo post] A experiência da dor!



Antonio Ozaí da Silva publicou: "A dor começou sem aviso prévio. Insidiosa, despontou quando ele se dirigia para mais uma atividade acadêmica considerada importante, especialmente, pelos organizadores. Ele não costuma faltar, independente do referencial teórico e dos interesses envo"
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Novo post em blog do ozaí

A experiência da dor!

by Antonio Ozaí da Silva

A dor começou sem aviso prévio. Insidiosa, despontou quando ele se dirigia para mais uma atividade acadêmica considerada importante, especialmente, pelos organizadores. Ele não costuma faltar, independente do referencial teórico e dos interesses envolvidos. Aliás, ele não compreende a prática de uns e outros de comparecer apenas nos eventos da confraria com a qual se identifica. Ele não queria faltar. Poderiam imaginar que ele ‘boicotou’. Por que será que ele se preocupa com as maledicências? Talvez tenha levado muito a sério o conselho do florentino sobre a necessidade de manter as aparências. Mas, pensando bem, ele não é do tipo maquiavélico!

A dor se intensificou e, com ela, a certeza de que não poderia ficar no evento. De volta a casa, na esperança de que a medicação já costumeira lhe daria alívio, a dor atormentava-o. Finalmente, chegou e, para seu desalento, viu que estava só. A dor lombar indicava que poderia ser a coluna, nervo ciático. Já catedrático em dores nesta região do corpo, imaginou que se tratava de mais uma crise conhecida. Automedicou-se e aquietou-se na esperança de que a dor cedesse. A dor persistia. Não encontrava posição que a tornasse suportável e o relaxante muscular não surtia efeito. Deitou de bruços, de barriga para cima, de lado, em posição fetal... Não adiantou! A dor insistia e tornava-se insuportável.

Cerca de quatro horas depois que ela dera os primeiros sinais de que aquela noite seria inesquecível em sua vida, levaram-no ao hospital. O corpo contorcido e a expressão de dor não comoveram a funcionária e ele precisou aguardar os procedimentos formais burocráticos. Ele esperava e, ainda que a dor o torturasse, recordou dos ensinamentos de Max Weber sobre a burocracia. A dor humana não se sobrepõe às exigências da organização burocrática. Ainda que sofra, é preciso esperar. Em sua dor, ele compreendia o apego profissional da atendente. Afinal, a dor é parte do seu cotidiano. Sua atitude é impessoal e funcional.

Finalmente, o chamaram. Mas ainda não era o alívio que ele esperava, ou seja, a consulta médica e, de acordo com o procedimento padrão, a aplicação de um coquetel de medicamentos por aplicação endovenosa. Enganou-se, não chegara o socorro almejado. Numa situação de dor intensa tudo que se quer é a sua atenuação e eliminação. Em vez disso, a enfermeira mediu a pressão e disse que estava normal. Ainda bem! Como um pedido, educadamente, ela mandou-o de volta à sala de espera e disse que aguardasse o médico chamar.

A espera parecia uma eternidade. A dor teimava em atormentar o corpo e a alma. Finalmente, o doutor pronunciou o seu nome. Ele adentrou ao consultório e até sentiu-se melhor diante da possibilidade iminente de aliviar a dor. Contou ao médico o que sentia e até lembrou-se de detalhes que antecederam à eclosão da dor, os quais poderiam contribuir para o diagnóstico. Gentil e atencioso, o medico examinou-o e solicitou os exames de praxe. Encaminhou-o, então, para ser medicado. Era tudo o que ele queria. A cada gota que descia pelo equipo e introduzia-se na corrente sanguínea, a dor cedia e era substituída por uma sensação aliviante.

Os exames solicitados pelo médico confirmaram o diagnóstico: cólica renal. Coincidentemente, uma senhora sofria de dores semelhantes e, veterana, já sabia o que era. Tagarelava, talvez como um antídoto à dor. Ele mantinha-se em silêncio, de olhos fechados e mal a ouvia. Ainda assim, não esqueceu quando ela disse: “Cólica renal é pior que dor de parto!” Ela falava com propriedade, era mãe. Só lhe restava concordar! Em seu íntimo, sentiu-se solidário com as mulheres e profundamente agradecido àquela que o gerou e a quem o acompanhava e permaneceu ao seu lado o tempo todo. A dor é menos dilacerante quando não se está só!

A dor cedeu e ele foi dispensado, com o conselho de procurar um urologista. Três dias depois, ela retornou. Dessa vez, porém, era suportável. Sua companheira conseguiu agendar uma consulta de urgência com o especialista. Este o encaminhou para fazer uma ultrassonografia. Confirmou-se o diagnóstico do médico plantonista que o atendera. A causa da dor era um cálculo renal, a popular pedra nos rins, de 0,7 cm.

Diante do diagnóstico, o doutor indicou a necessidade de cirurgia. Ele recusou-se a seguir a orientação médica! Dias depois, foi acometido por dores na região abdominal. A experiência recente dizia-o que não era cólica renal. Após novos exames e ultrassonografia foi constatado que ele estava com outra pedra no corpo, desta feita alojada na vesícula. Admirou-se pela capacidade de produzir ‘pedras’ e pelo fato de se manifestarem quase que simultaneamente. A notícia boa é que a pedra renal não apareceu nas imagens do exame e tudo indicava que fora expelida. A preocupante é que terá que fazer cirurgia e retirar a vesícula. São os ‘presentes’ do passar do tempo, do cinquentenário!

Antonio Ozaí da Silva | 09/11/2012 às 23:50 | Categorias: reflexões do quotidiano | URL: http://wp.me/pDZ7T-wL

 

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publicado por animalsapiens às 09:58

18
Out 12

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publicado por animalsapiens às 13:36

29
Jan 12

Crônica do Fórum Social Temático – E o Samuel não veio!

by Antonio Ozaí da Silva

Era 26 de janeiro de 2012. Mais um dia de atividades do Fórum Social Temático 2012, realizado em Porto Alegre, Canoas, São Leopoldo e Novo Hamburgo (RS). Ele consulta a programação e, destaca o tema Aldous Huxley e o Século XXI. Ele adora literatura leu algumas das obras do autor. Recorda da leitura de Admirável Mundo Novo, nos anos 1990, um livro que o marcou e que adotou com seus alunos nas aulas de Sociologia – também leu A Ilha e Contraponto. Ele não é um especialista no tema, mas apenas um leitor dedicado.

Após refletir sobre as opções que tem, ele decide e dirige-se ao local indicado. Ele desconhece como chegar à Assembléia Legislativa e pede informações. Por sorte encontra uma senhora que trabalha na recepção da instituição, onde deveria ocorrer a atividade marcada para as 9:00hs. No caminho, ela relata o drama que viveu: perdeu o filho, assassinado num assalto, e, dias depois, teve que passar por uma cirurgia de ponte de safena. Apesar de tudo, ela recuperou a alegria de viver e fala da netinha com paixão. Seu caminhar ofegante indica os efeitos de um coração sofrido e debilitado. A conversa é uma lição de vida.

Na Assembléia Legislativa ele descobre que o local da atividade foi alterado. Após ser informado e instruído sobre o trajeto, ele dirige-se à UFRGS. No caminho, ele observa a paisagem e pensa sobre a dramática história de vida da mãe que perdeu o jovem filho amado. Chega ao destino e procura saber a sala em que será realizada a palestra sobre Aldous Huxley. Com a informação em mãos, dirige-se à sala no 3º andar. Não é o primeiro a chegar e tão logo respondem ao seu Bom Dia!, perguntam-lhe: “Você é o Samuel?”. Não, ele não é o palestrante esperado, mas apenas mais um interessado no tema.

O tempo passa e nada do Samuel aparecer! A pergunta torna-se uma brincadeira com cada indivíduo que apareça à porta. A resposta é unânime: “Não, não sou o Samuel!” O interessante é que a maioria permanece na sala a conversar e esperar o Samuel. O tempo avança e fica cada vez mais nítido que ele não virá. Mas resta a esperança, quem sabe chegue a qualquer momento.

São 10hs e cerca de 30 pessoas ainda esperam pacientemente. A paciência tem limites. Então, um dos presentes toma a palavra. O jovem propõe ao grupo o início da conversa sobre o tema previsto; afinal, diz, estamos num espaço autogestionário. Todos concordam e ele passa a falar sobre Aldous Huxley e a obra (afirma ter lido 21 livros). Há outras intervenções, mas a maioria mantém a atitude de ouvinte. Um deles, ainda impactado pelo relato da mãe que perdeu o filho, fala sobre a experiência como leitor e propõe que, quem queira, fale sobre os motivos pelos quais escolheu esta atividade, considerando-se que o tema difere de outros tidos como mais comuns no Fórum Social. Sugere, ainda, que as pessoas se apresentem. Alguém reforça a proposta e o jovem propõe que cada um fale. Sentados em círculo, um após o outro se apresenta e expõe sua experiência. Aparecem, então, os leitores fãs de Aldous Huxley, outros que apenas leram Admirável Mundo Novo e foram impactados pela leitura, um ou outro que leu mais de um livro e demais interessados.

Todos permanecem até que o último fale e aguardam a fala final do jovem. Concordam que foi uma experiência rica, alguns até afirmam que talvez tenha sido melhor do que seria se o Samuel tivesse aparecido. Não se sabe, mas o fato é que foi um tempo compartilhado por indivíduos com o interesse comum de conversar sobre literatura e a atualidade do autor. O sentimento geral é que valeu a pena.

Desconhece-se o que aconteceu com o Samuel. Talvez tenha ocorrido algum imprevisto, ele deve ter justificativa. Não obstante, ninguém ficou a lamentar a ausência. O Samuel não veio, mas a atividade aconteceu. Teria sido diferente se o palestrante estivesse presente. Ficaram sem conhecer o Samuel. Ele não veio, mas foi uma manhã rica em aprendizado.

 

Ps.: Veja fotos do Fórum Social Temático 2012 em http://www.facebook.com/media/set/?set=a.347949655229693.87625.100000439853163&type=3

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publicado por animalsapiens às 10:38

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