Para falar de gente, de seres humanos, do bicho humano perfectível, apesar de tudo. Do Animal sapiens, mas a partir de agora do "Homo spiritualis", com sua fé e religiosidade muitas vezes confusa, gerando preconceitos, discriminações.

05
Jan 13

Apesar da quantidade de más notícias, de desastres de todos os tipos, dos problemas de natureza pessoal ou coletiva etc., o ser humano segue preso a duas coisas: às esperanças, mesmo que frustradas sistematicamente, e aos desafios, mesmo aqueles que põem sua própria vida em risco. Talvez esteja aí a mágica da sobrevivência da espécie. Nossa insistência em sobreviver !

 

Contudo, a conjuntura mundial demanda profunda reflexão, pois pode estar além dos sentimentos individuais e a esperar por acões conjuntas, coletivas, de modo a mudar a rota antes que algum desastre de grandes proporções ponha a vida no planeta em risco real. Seria um trabalho da minoria consciente de sempre, já que a cegueira dos seguidores do deus dinheiro/mercado permanece, e eles continuarão delirando e acreditando que o caminho é esse, e que 'austeridade' e cortes com gastos sociais solucionarão o impasse civilizatório em que nos metemos, ou nos meteram.

 

- por Paulo Santos

publicado por animalsapiens às 08:20

17
Nov 12
publicado por animalsapiens às 00:10

13
Nov 12

OS DOIS BRASIS: O DA ALIENAÇÃO E O DA VIOLÊNCIA

                                                       Paulo R. Santos*
Assim como toda cidade não é única, mas duas: a diurna com sua rotina e pessoas características, e a noturna, com sua outra – e muitas vezes perigosa – rotina das sombras e dos medos, o Brasil nunca foi único nem uniforme. E nem poderia ser!
Gilberto Freire, sociólogo da primeira metade do século XX, identificou dois Brasis, herdados do período colonial, aos quais chamou de Casa-Grande e Senzala, nome do livro que publicou em 1933, e que inaugura uma nova fase de interpretação da história brasileira, sem usar as lentes europeias.
 
Gilberto Freyre (fonte Wikipédia)
Esse duplo Brasil ainda existe e persiste com força maior, apesar dos esforços em amenizar o sofrimento na Senzala. A elite dominante olha da porta ou da janela do casarão, relativamente seguro, luxuoso e pequeno, o enorme espaço por onde circula uma população diversificada nas crenças e nas cores, sobrevivendo como pode, vez por outra - ou quase sempre -, acuada pelas dificuldades e reprimida pela polícia, infeliz herdeira cultural do Capitão do mato e dos jagunços.
A alienação da elite, que é um tipo de violência, alimenta as dificuldades dos herdeiros das senzalas, que vivem em meio a outras formas de violência, tornando-se – muitas vezes – violentos por força das circunstâncias extremas. Uma elite prisioneira do egoísmo e da alienação. Uma população prisioneira da escassa educação e dos desejos não atendidos.
O resultado está bem visível nos números que nos atormentam e amedrontam. Cerca de 45 mil homicídios por ano. Bolsões de violências várias, onde parece não existirem inocentes. O principal agressor, o Estado, alimenta a violência que se estende e amplia para novas áreas, no mínimo por não cumprir com seus deveres constitucionais.
Estados paralelos
Exemplos claros são o Rio de Janeiro com um estado paralelo infiltrado no estado formal, e São Paulo, com um crime organizado capaz de estabelecer regras de convívio entre o legal e o ilegal. A violência de um lado produz a reação igualmente violenta do outro. E não nos iludamos pensando que a situação não se repete em outros estados menos midiáticos ou no coração do governo federal: Brasília. O Brasil sempre foi um país injusto!
 
Injustiças existem por aqui desde sempre. (Imagem: Wikipédia Free)
A reversão desse quadro melancólico exige coragem e vontade política dos governantes que cuidam (ou não) do erário, dos tributos, e da destinação dos recursos públicos. É preciso investir pesadamente em educação, saúde, cultura, segurança pública, lazer, transporte, trabalho e emprego, dentre outras coisas.

Não como um negócio, mas como o preço pela sobrevivência de uma sociedade que vive no medo e na incerteza, alimentos ricos em violência.

 


* Paulo Roberto Santos é professor e sociólogo, edita o blog  http://animalsapiens.blogs.sapo.pt/ e é colaborador oficial deste blog.

** Transcopiado de www.antijornalismo.blogspot.com.br
publicado por animalsapiens às 10:39

11
Nov 12

Sou do tempo em que crianças brincavam de guerra. Apenas brincavam, imitando o que viam naquela enxurrada de filmes vindos principalmente dos Estados Unidos, então em guerra contra o Vietnam. A guerra, vista assim de longe, na telinha, cercada de uma falsa aura de glória e coragem, passava a impressão de que era o ponto máximo a que um homem poderia chegar na vida.

 

Na adolescência pude ter contato com um senhor de certa idade, fugitivo de Angola, e que vivia num desses abrigos para idosos na capital mineira. Eram tempos de lutas pela libertação de Portugal. Eu morava quase ao lado da residência de um ex-combatente da segunda guerra mundial que, um dia, vendo-me passar pela frente de sua casa, como habitualmente fazia para ir trabalhar, insistiu para que eu lesse um certo fascículo do então popular Reader's Digest (Seleções), que trazia um longo trecho em português de Portugal, do diário de um sargento da Batalha de Waterloo, aquela que havia posto fim à carreira de Napoleão Bonaparte em 1815.

 

Assim que tive tempo, comecei a ler ainda meio sem vontade, mas sabia que ele gostaria de comentar o assunto depois. Foi assim o meu primeiro contato com a guerra verdadeira. A leitura do diário me pôs em contato com o momento vivido por aquele homem que descreveu o medo e a ansiedade que antecedia a batalha. Falava dos batalhões formados por milhares de soldados mais jovens e inexperientes, e da tremedeira ou diarreia que se espalhava por causa do medo do que estava por acontecer. Descreveu a batalha que teve um número imenso de mortos e feridos, e da necessidade de misturar veteranos com os novatos para estabilizar os pelotões. Falou de um oficial de cavalaria atingido em pleno peito por uma bala de canhão, e de outro que segurava as rédeas do cavalo com a boca por causa dos ferimentos nos dois braços. Citou a dificuldade das arremetidas da cavalaria por conta do número de mortos e das baionetas caídas no solo e que feriam as patas dos animais.

 

Com os anos aprendi que naqueles tempos as guerras aconteciam entre exércitos e não envolviam diretamente a população civil. Os campos de batalha eram escolhidos e lá se decidia entre soldados. Depois da segunda guerra mundial, as guerras já não escolhem claramente os alvos. Qualquer um, civil ou militar, é alvo potencial da artilharia, dos bombardeios e das rajadas de metralhadoras,, ... apesar de dizerem o contrário.

 

Hoje, estamos todos envolvidos nas guerras urbanas, alimentadas pelo narcotráfico, pelo tráfico de armas, pela fome, pelas neuroses, pela miséria moral e material, pela ineficiência do Estado em cumprir sua missão constitucional e pelo egoísmo de classe e de casta. Como dizem, saímos de casa candidatos a vítimas e voltamos como sobreviventes. A guerra não acontece mais lá, mas em toda parte.

 

- por Paulo Santos

 

 

 

publicado por animalsapiens às 09:50

29
Out 12

 

Imagem: desfato.blogspot.com

 

Só para relembrar, mandalas são aqueles bonitos arranjos e desenhos feitos com areia colorida pelos orientais, principalmente pelos povos do Himalaia, em particular pelos tibetanos. A mandala, depois de pronta (e demanda dias, até semanas, para ficar pronta) é intencionalmente desfeita com gestos rituais rápidos, para indicar as inevitáveis e inesperadas mudanças, ou dentro da crença budista, o 'princípio da impermanência'. Nada é para sempre !

 

O mundo é assim, tanto quanto a vida de um povo ou de uma pessoa. Mudanças acontecem, queiramos ou não, demorem ou não. Num olhar pelo retrovisor da história, pessoal ou global, e vemos inúmeros momentos de mudanças, em geral inesperadas. A mudança, nesse sentido, está na natureza das coisas; faz parte das circunstâncias, entropia na linguagem da Física.

 

Se assim é, lutar contra elas - as mudanças - é esforço inútil. Deveriam ser aproveitadas para redirecionar a vida de povos e pessoas, embora os aproveitadores e espertalhões estejam sempre a postos para tirar proveito pessoal desses momentos de instabilidade coletiva, tal como o que atualmente vivemos. Se adaptar-se a mudanças bruscas e nem sempre positivas é fácil, temos que aprender a surfar sobre elas de algum modo, direcionando a prancha para os propósitos, sonhos e desejos que todos temos. Por isso, a vitória dos conservadores e reacionários é sempre temporária.

 

- por Paulo Santos

publicado por animalsapiens às 10:58

28
Out 12

"Eu esperava um homem forte, alto, altivo, de bigode à Clemanceau e pince-nez. Assim minha imaginação o fazia, pelo retrato em busto que ele me enviara em 1915. Ali estava, porém, um homem de estatura meã, delicado de corpo, de longas barbas brancas em flâmula de duas pontas, cabeça meio pendida para frente e para o coração. Estendeu-me a destra com um sorriso acolhedor. (Léon Denis, partiu em retorno à Espiritualidade em 12 de abriu de 1927, trabalhando, apesar da pneumonia).

[...]

 

* Artigo publicado inicialmente em A Centelha, em 1945, com os comentários do pesquisador Canuto Abreu, sobre seu encontro em janeiro de 1922 com Léon Denis na cidade de Tour, França; republicado no Correio Fraterno, edição 129, de setembro de 1981 e, novamente, no Correio setembro-outubro de 2012.

 

** Texto na íntegra em www.correiofraterno.com.br

 

- por Paulo Santos

publicado por animalsapiens às 10:48

27
Out 12
 
 

 

     
 

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Minas Gerais - história

 

 

Riquezas:

Por onde anda o ouro de Minas?

Boa parte desse ouro e pedras saiu de Sabará e Vila Rica (hoje Ouro Preto),

mas também de outras Vilas, como São João Del Rei e Diamantina.

Por Paulo Roberto Santos*

De Divinópolis-MG

Para Via Fanzine

27/10/2012

 

 

Escravos com suas bateia garimpam o ouro de Minas Gerais, que se espalhou por outras terras.

 

Muita gente se pergunta por onde anda o ouro de Serra Pelada, no Pará, onde existiu um verdadeiro formigueiro humano e de repente não se fala mais no assunto. Outros se perguntam por onde anda a prata das minas de Potosi, na Bolívia, outro formigueiro humano de tempos idos e sobre o qual quase não se fala. E as riquezas dos Incas, dos Astecas e dos Maias?

 

A Capitania de Minas Gerais forneceu, principalmente na primeira metade do século XVIII, uma quantidade imensa de ouro e pedras preciosas que eram levadas para a metrópole portuguesa, contrabandeadas para França e Holanda, e sabe-se lá para que outros lugares, quando os galeões não eram atacados por piratas espanhóis, franceses ou holandeses ou por corsários ingleses.

 

Boa parte desse ouro e pedras saiu de Sabará e Vila Rica (hoje Ouro Preto), mas também de outras Vilas, como São João Del Rei e Diamantina. Às arrobas eram levadas por naus de guerra para Portugal, de onde iam quase diretamente para a Inglaterra, em pagamento das manufaturas que a Corte não produzia, mas consumia em larga escala.

 

Com o ouro das Gerais e parte da prata de Potosi a Inglaterra fez a sua revolução industrial. Juntando as riquezas extraídas de suas colônias e os créditos, a Inglaterra se fez a primeira na onda das revoluções industriais, seguida pelos Estados Unidos e outros países europeus. Tudo com base nessa economia baseada no saque e na depredação de outras terras. As mesmas que até hoje tentam se erguer pelo atraso produzido pela revolução industrial tardia, como ocorreu na Argentina, no Brasil e no Chile, além de alguns países asiáticos.

 

 

Potosi: prata retirada e enviada à Europa.

 

Mas, quem ainda mais sofre com isso são os países africanos. Perderam riquezas naturais e gente levada para outras terras como escravos para o trabalho nos engenhos de açúcar, nos garimpos, na lavoura, nos serviços sujos e perigosos e até para as guerras em troca de alforria, como na guerra contra o Paraguai e na Guerra de Sessessão, nos Estados Unidos, ambas ocorridas na década de 1860.

 

O ouro das Gerais, principalmente, lastreou o luxo da corte portuguesa no século XVIII. Nem mesmo o Marquês de Pombal, um déspota esclarecido, conseguiu fazer a Corte entender que era preciso mais autonomia para a nação, e que não se podia sempre comprar dos outros (da Inglaterra, no caso), pelo alto risco de dependência econômica daí advinda.

 

A Capitania das Minas Gerais esgotou-se pouco a pouco, junto com a paciência dos naturais, até que sedições e conspirações de brancos, índios e escravos começaram a nascer. O século XIX viu o país receber toda a Corte portuguesa de uma só vez (1808); talvez no que foi a maior migração forçada de uma elite em toda a história conhecida, pois cerca de quinze mil portugueses desembarcaram por aqui, apossando-se em definitivo do país. Os clãs políticos que ainda hoje temos são, em sua maioria, descendentes desses fugitivos das tropas de Napoleão Bonaparte.

 

Minas assentou-se em suas tradições e costumes, em seu catolicismo popular, santeiro, tornando-se um estado por onde a política vai e vem, em sua mistura de cores e crenças. Qualquer mineiro atento encontra um pedaço de sua história num raio de cem quilômetros, mas o ouro se foi e não faz falta. O que ficou é resto daquele que fez a Revolução Industrial inglesa. Falta-nos agora uma revolução cultural, que restabeleça um passado coerente e projete um futuro; uma história mais completa. Uma história com menos celebridades e com mais participação popular, como de fato aconteceu.

 

* Paulo Roberto Santos é professor e sociólogo, seu blog é http://animalsapiens.blogs.sapo.pt/.

 

-Fotos: Wikipedia.

 

- Extra:

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publicado por animalsapiens às 13:47

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09
Out 12

'Só sei que há mistérios demais, em torno dos livros e de quem os lê e de quem os escreve; mas convindo principalmente a uns e outros a humildade. A fazedora de velas, queira Deus o acabe algum dia, quando conseguir vencer um pouco mais em mim o medo miúdo da morte, etc. Às vezes, quase sempre, um livro é maior que a gente.'

 

Guimarães Rosa, Tutaméia. Sobre a escova e a dúvida.

publicado por animalsapiens às 12:44

03
Out 12

 

'A linguagem das pedras nos corações dos homens' - Com a qualidade jornalística  Via Fanzine

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Quilombo do Rei Ambrósio

 

Resistência negra:

Um reino africano no Centro de Minas? - Parte 2

No início do século XVIII, surgiu mais ou menos na região centro-oeste da então

Capitania de Minas Gerais, uma confederação de quilombos que, no conjunto,

passou a ser conhecida como Quilombo do Rei Ambrósio, ou do Campo Grande.

 

Por Paulo Roberto Santos*

De Divinópolis-MG

Para Via Fanzine

06/09/2012

 

 

No interior de Minas, o povoado de Catumba, na região de Itaúna-MG ainda guarda vestígios da antiga presença de escravos.

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Por volta de 1760, com o fim da confederação dos quilombos espalhados do rio das Mortes ao Abaeté, e de Ibiá a Itaguara, presumíveis indicadores dos limites do quilombo do Rei Ambrósio (ou do Campo Grande), houve avanços de bandeirantes (grupos paramilitares ou milícias, acompanhadas por pessoas de todo o tipo, de aventureiros a saqueadores), em direção ao oeste de Minas.

 

Já havia pequenos povoados pela região, formados anteriormente pelos fugitivos da guerra dos emboabas, ocorrida algumas décadas antes, em 1708-09, com a derrota, fuga ou morte dos paulistas. Esse episódio deu causa à criação da Capitania de Minas Gerais, fazendo os paulistas se voltarem mais para regiões interioranas e em direção ao atual Paraguai e Mato Grosso.

 

Enquanto isso, nas Gerais, o ouro escasseava rapidamente. A Coroa portuguesa precisava dos recursos das colônias para quitar suas dívidas para com a Inglaterra, e para os manufaturados que até então - já com a nascente revolução industrial -, ainda não produzia.

 

É nesse contexto de empobrecimento rápido e generalizado que negros forros, fugitivos, remanescentes de etnias nativas, brancos pobres ou ricos naturais, vão se defrontar com um episódio de truculência e arbítrio que ficou conhecido como a Conjuração Mineira. A conspiração que envolveu membros de todas as classes, clérigos inclusive e gente da região principalmente, mas também alguns portugueses, que tinha como propósito principal a libertação da Capitania de Minas do governo português.

 

Havia o apoio de paulistas e fluminenses, mas, principalmente, de baianos e pernambucanos. Os governos dos Estados Unidos, França e Inglaterra prometeram apoio e reconhecimento à nova nação. Se não houvesse a delação e prisão dos principais condutores do movimento, havendo sucesso, certamente, seria o estopim para as lutas de emancipação das demais Capitanias.

 

É preciso citar que, ao longo do século XVIII, dezenas de milhares de negros africanos foram trazidos para a Capitania de Minas Gerais, para o trabalho nas minas e em serviços diversos. Não se deve pensar nos negros africanos, principalmente nos sudaneses, como povos atrasados. Existiam reinos prósperos, que faziam comércio com a Índia e entre si. Os sudaneses, em sua maioria, falavam e escreviam em árabe, e trazidos ao Brasil eram, muitas vezes, mais alfabetizados que os seus senhores.

 

Conhecedores da metalurgia, da pecuária, de plantas medicinais, de práticas de cura ancestrais, das artes da guerra e da paz, quando era o caso, os africanos eram superiores aos indígenas, que ainda viviam na idade da pedra polida, da cerâmica, da caça, pesca e coleta. Por essa razão foram substituídos na mão de obra ao longo dos séculos.

 

 

Entre os vestígios deixados pelos escravos estão valas cavadas e também muros feitos de pedras da região.

 

Redutos remanescentes

 

Da confederação de quilombos que constituiu o reino do Rei Ambrósio, restou uma quantidade imensa de redutos remanescentes que lutam, até hoje, pelo reconhecimento de suas terras, cobiçadas por fazendeiros que ainda os veem como mão de obra barata, quando não ainda como escravos. Aos poucos, o atual Governo Federal vem resolvendo essas demandas em favor dos quilombolas, não sem a resistência dos latifundiários.

 

O quilombo se foi, mas sua influência ficou até hoje. A culinária mineira cheira a improviso. Além disso, o uso do fubá de milho, da farinha de mandioca e do polvilho, deu novos pratos à cultura nacional. Quem nunca ouviu falar, ou já experimentou, o pão de queijo, resultado da escassez de trigo naqueles tempos idos, e a invenção do queijo mineiro, feito com leite cru?

 

No linguajar, em Minas como em todo o Brasil, ficamos com os adjetivos carinhosos aprendidos com as negras que cuidavam e davam seu próprio leite aos filhos dos senhores: benzinho, amorzinho… E tantas outras expressões de carinho hoje tão comuns.

 

Com a chegada ao Brasil da família real portuguesa, em 1808, fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte, o país passa a ter o português como língua obrigatória, fazendo com que o nhengatu (fala boa, em tupi) fosse aos poucos abandonado. Essa língua, criada pela inventividade dos padres jesuítas do século XVI, numa mistura de tupi com português, foi a língua comum por mais de dois séculos. Foi também usada pelos bandeirantes - em sua maioria, mameluca, e não branca, como divulgado por décadas na historiografia oficial.

 

Um pouco desse linguajar arcaico reaparece nas obras do escritor mineiro Guimarães Rosa, em todas as suas obras, mas particularmente no “Grande Sertão: Veredas” e em “Sagarana”. Um português - ou talvez seja melhor dizer, mineirês -, que dificilmente será entendido pelas gerações futuras, perdendo-se, assim, uma das maiores belezas literárias do país.

 

Controvérsias, lacunas, dúvidas e incertezas à parte, eis uma página de grande interesse da história de Minas Gerais, e que vem sendo, lentamente, reconstituída por profissionais e amadores.

 

- Clique aqui para voltar a parte 1

 

* Paulo Roberto Santos é professor e sociólogo, seu blog é http://animalsapiens.blogs.sapo.pt/.

 

-Fotos: Charles AquinoIshimoto / Itaúna em Décadas.

 

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- Extras: 

   Algumas sugestões de leitura:  

- BARRETO, Lázaro. Memorial do Desterro. Divinópolis, Diocese de Divinópolis, 1995.

- FIÚZA, Rubens. Do São Francisco ao Indaiá. Juiz de Fora, Liberdade Livraria, 2003.

- Disponíveis em MG Quilombo.

- Viste o portal MG Quilombo

    Vídeo - entrevista com o professor Félix Rodrigues (RTP/Portugal).

   Açores: encontradas sepulturas de 2 mil anos (TVI/Portugal).

 

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publicado por animalsapiens às 15:05

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