Para falar de gente, de seres humanos, do bicho humano perfectível, apesar de tudo. Do Animal sapiens, mas a partir de agora do "Homo spiritualis", com sua fé e religiosidade muitas vezes confusa, gerando preconceitos, discriminações.

04
Jul 12

 Minas Gerais

 

Uma lenta descoberta:

Minas - e suas histórias – são muitas

O Homem de Lagoa Santa, estudado pelo pesquisador dinamarquês Peter W. Lund,

no século 19, só mais recentemente passou a receber a atenção que merece.

 

Por Paulo Roberto Santos*

De Divinópolis-MG

Para Via Fanzine

03/07/2012

 

 

O Homem de Lagoa Santa: exemplo de que Minas ainda está sendo descoberta.

 

Itaúna, Itaguara, Itatiaiuçu, Piracema, Itapecerica… E tantos outros nomes de origem indígena a indicar a ainda desconhecida Minas dos goitacases, como de tantos africanos para cá trazidos como parte da maior migração forçada da história humana: algo em torno de quatro milhões de africanos trazidos para o trabalho escravo. Muitos de origem árabe-islâmica e mais alfabetizados que seus senhores.

 

O quilombo do rei Ambrósio e/ou do Campo Grande, com fortes indícios de ter sido maior que o de Palmares, no nordeste brasileiro, também a aguardar estudos mais sérios e aprofundados. Ainda são muitos os vestígios e remanescentes de quilombos nas Gerais, tanto quanto de suas picadas, muros de pedras e valas, machados de pedra polida, cachimbos bem adornados, pinturas rupestres e fósseis de animais que não mais existem.

 

O Homem de Lagoa Santa, estudado pelo pesquisador dinamarquês Peter W. Lund, no século 19, só mais recentemente passou a receber a atenção que merece. E convém que não se atrasem demais as pesquisas, pois as riquezas naturais de Minas a tornam objeto da cobiça de empresários pouco preocupados com a preservação da história e dos sítios arqueológicos, como de outros tantos megarricos interessados no chamado ecoturismo, e no prestígio e dinheiro que trazem.

 

Minas são muitas, de fato, como bem a definiu o poeta Drummond. Mas os interesses mercantis e politicagens têm passado por cima de uma das regiões mais importantes do país, do ponto de vista histórico e pré-histórico. Uma história que vai sendo convenientemente esquecida, deixando seus habitantes desenraizados e sem passado, prontos a absorver hábitos e culturas estranhas à região, além de serem predatórias já que se estabelecem pelo viés de mercado.

 

O pão de queijo, o queijo artesanal (feito com leite cru), a broa de fubá, o biscoito assado ou frito, bolos, os derivados da mandioca, herança e aprendizado vindo dos indígenas somados à criatividade das cozinheiras africanas pela escassez de trigo nos séculos anteriores, hoje se tornam “produto para exportação” ou “produtos culturais”. Vão deixando de ser alimento de um povo. Alimento para o corpo e para o espírito, pelo lastro histórico que carregam em si.

 

Minas sobrevive com suas tradições e costumes talvez por esse relativo esquecimento do deus mercado, que por aqui passa de vez em quando e leva apenas imagens pelas lentes das câmeras das tevês do eixo Rio-SP, mas não nos levam e nem o que realmente somos ou fazemos, como bem descrito pelo poeta Carlos Drummond de Andrade, em seu poema Ser Mineiro. Talvez por isso continuemos um tanto sertanejos como descritos pelo Guimarães Rosa no Grande Sertão: Veredas. Talvez!

 

* Paulo Roberto Santos é professor e sociólogo, seu blog é http://animalsapiens.blogs.sapo.pt/.

 

- Foto: lagoasanta.com.br.

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publicado por animalsapiens às 12:46

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