Para falar de gente, de seres humanos, do bicho humano perfectível, apesar de tudo. Do Animal sapiens, mas a partir de agora do "Homo spiritualis", com sua fé e religiosidade muitas vezes confusa, gerando preconceitos, discriminações.

02
Jul 11

Fim do “politicamente correto”

 

O estratagema da marginalização consiste num esforço sistemático para afastar a preocupação com a eternidade (e, de fato, com a duração em si) da consciência humana e despi-la de seus poderes de dominar, moldar e definir o curso da existência individual.”

(Zygmunt Bauman, Medo Líquido, Jorge Zahar Editor/2006)

 

O fim da “guerra fria”, isto é, a queda da antiga URSS e do muro de Berlim no final dos anos 1980, deu início a uma crença infundada na vitória definitiva do capitalismo em sua versão neoliberal, e a um delírio coletivo que durou pouco mais de doze anos, até que o atentado às torres em Nova York forçou os delirantes a porem novamente os pés no chão.

 

Junto com as torres caíram as relações de confiança, muitos valores familiares, políticos e sociais que já vinham se fragmentando, pondo a sociedade em processo de descivilização, demonstrada pela explosão de violência e caos, além da implosão de princípios fundamentais e indispensáveis para qualquer sociedade que se pretenda democrática: a liberdade e a justiça.

 

Para pôr a realidade nua e crua fora do alcance, da visão e do entendimento do cidadão comum, apareceu uma linguagem carregada de eufemismos que passou a ser tida como “politicamente correta”; no Brasil conhecida como o dialeto “tucanês”.

 

Portador de necessidades especiais, e não mais deficiente físico ou mental. Importador ilegal no lugar de contrabandista. “O senhor está faltando com a verdade” no lugar de “você está mentindo”. Desinteligência no lugar de burrice.

 

O ideário neoliberal engendrou as maquiagens que fascinaram muita gente lá nos idos de 1990. Reengenharia, Qualidade Total, Empreendedorismo. Colaborador em vez de empregado ou funcionário. O escritor português José Saramago denunciou a malícia no seu Ensaio sobre a cegueira. De repente ficamos quase todos cegos, ofuscados ou deslumbrados com as promessas pós guerra fria.

 

A verdade, porém, foi bem outra. Uma nova forma de imperialismo, o nascimento dos novos nacionalismos, do neofascismo, dos fundamentalismos religiosos em oposição ao fundamentalismo econômico, a explosão da violência, o enfraquecimento do Estado, a implosão da sociedade.

 

A invasão do Iraque, a guerra da Bósnia, os conflitos na África, as recorrentes guerras no Oriente Médio. Tudo isso e muito mais explicado pelo maior dos eufemismos neoliberais: a “guerra preventiva” e as “incursões defensivas”.

 

O número de pobres (“classes de baixa renda”, em tucanês) aumentou. As vítimas civis das guerras (“baixas colaterais”) aumentam em proporção geométrica diante da potência destrutiva dos bombardeios. Os campos de refugiados também aumentam (são os sem teto, sem terra, sem saúde, sem educação, sem escolha, sem futuro, na América Latina).

 

Em resumo: o empobrecimento da vida artística, espiritual e intelectual. A precarização do bom e do belo. A ideologia do consumo-aqui/agora apresentada como saída de uma crise que, ao final das contas é pedagógica e necessária, é outro grande engodo. A Terra já não suporta a degradação e a humanidade pode pagar um alto preço por essa irresponsabilidade com o meio ambiente.

 

A “defasagem moral” é gritante. Evoluímos muito em ciência e tecnologia, mas sem o tempero da sabedoria e da moderação. Mudar as palavras, seus significados, não mudam a dura realidade. Eufemismos apenas disfarçam temporariamente a situação. Uma linguagem “politicamente correta” pode até ser agradável de ouvir, mas não enche barriga, não traz paz, não esclarece nem educa, não reduz homicídios e suicídios, não acalma a natureza.

 

publicado por animalsapiens às 22:20

Julho 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9






mais sobre mim
pesquisar
 
links
blogs SAPO