Para falar de gente, de seres humanos, do bicho humano perfectível, apesar de tudo. Do Animal sapiens, mas a partir de agora do "Homo spiritualis", com sua fé e religiosidade muitas vezes confusa, gerando preconceitos, discriminações.

05
Jul 11
Assunto pertinente e atual !!

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CRIANÇA & CONSUMO www.diplo.uol.com.br
A mídia que balança o berço
"Numa época em que se fala muito de ecologia, é preciso que nos
conscientizemos de que proteger nossos filhos do risco de desenvolver uma
forma de dependência em relação à tela luminosa é uma forma de ecologia do
espírito"

Maria Helena Masquetti <http://diplo.uol.com.br/_maria-helena-masquetti_>

(03/10/2008)

Nestes tempos de crianças expostas a tantos tipos de mídia, o velho
provérbio “a mão que balança o berço governa o mundo” propicia uma reflexão
sobre quem é realmente a maior autoridade na estrutura familiar. Tomando-se
por autoridade aquele que provê a manutenção da família, supõe-se que ambos,
marido e mulher, dividam entre si esse papel de governar a educação dos
filhos. No entanto, cada vez mais, as crianças expressam valores e anseios
contrários aos da educação recebida em casa e na escola. O fato é que elas
dependem dos exemplos adultos para a construção de sua identidade. E, por
acreditarem no que ouvem ou vêem, em sua lógica infantil, passam a ver a
mídia [1 <http://diplo.uol.com.br/2008-10,a2580#nb1>] como outra autoridade
dentro de casa.

Por meio dos sites, jogos eletrônicos, revistas, mensagens comerciais e
programas inadequados, a mídia propõe-se a satisfazer, de várias formas, os
desejos infantis que, pela manobra persuasiva, converte em necessidades.
Expresso em números (*Interscience*, 2003), o resultado desse bombardeio de
mensagens e apelos comerciais é de 80% de influência das crianças nas
compras da família. Isso concorre para diminuir a autoridade dos pais
perante os filhos. A propósito, há alguns meses, muita gente viu um
comercial de automóvel equipado com um aparelho de DVD, insinuando que a
atuação dos pais pode ser dispensável na vida dos filhos mediante a
aquisição de determinada tecnologia. A mensagem mostrava dois carros na
estrada. Num deles, os pais se desesperavam por não saber como conter as
rusgas entre os filhos pequenos enquanto, no outro, equipado com o aparelho
DVD, o clima era de total tranqüilidade pela atenção das crianças presa à
tela.

O que melhor explica o fato dos filhos aderirem tão mais prontamente a
tantas mensagens da mídia e desdenhar os ensinamentos dos pais é a
permissividade expressa por ela das duas formas mais sedutoras para a
criança: a ausência do “não”, palavrinha incômoda porém decisiva para a
demarcação dos limites imprescindíveis à socialização; e a reverência
irrestrita às vontades das crianças que só faz ampliar nelas a fantasia de
poder ter tudo.
Mídia: uma babá aparentemente dedicada, afetuosa e complacente demais com os
desejos infantis

Um pequeno recorte na trama do filme de Curtis Hanson: “A Mão que balança o
berço” – título, aliás, inspirado no citado provérbio, como explicita a fala
de um de seus protagonistas –, ilustra essa atração dos pequenos por adultos
complacentes demais com os desejos infantis. A trama gira em torno de uma
babá aparentemente dedicada e afetuosa que começa a se apropriar das duas
crianças de um jovem casal de forma lenta e sedutora. Valendo-se de sua
maior disponibilidade de tempo junto aos pequenos, a babá permite à
garotinha mais velha – cerca de cinco anos – assistir a um gênero de filme
vetado à ela pelos pais em função de sua pouca idade. Como é de se esperar,
a garotinha logo entende a babá como mais amorosa que seus pais.

De modo geral, tal cumplicidade com os caprichos infantis está presente em
diversos tipos de mídia dirigidos às crianças. E a tendência é antecipar-se,
cada vez mais, essa interferência na educação delas. Por isso, quem tiver
hoje nos braços seu recém-nascido já não pode deixar para mais tarde a
preocupação com os impactos da comunicação midiática na formação dos
pequenos. Ela já está do lado do berço na forma dos programas para bebês. Se
nos faltam ainda dados de pesquisa para saber o que acontecerá, daqui a
alguns anos, com os bebês “educados” via TV, não faltam experiências e
estudos sobre a formação do psiquismo. Um bebê não tem estrutura mental para
saber sequer quem é e o que é; não tem idéia de suas dimensões físicas;
desconhece o mundo à sua volta e, sobretudo, é fusionado com sua mãe,
tendo-a como uma extensão de si mesmo. Como concluiu o psicanalista e
pediatra Donald Winnicott, um dos mais brilhantes estudiosos do
desenvolvimento infantil, “não existe tal coisa chamada bebê, significando
com isso que se decidirmos descrever um bebê, encontrar-nos-emos descrevendo
um bebê e alguém. Um bebê não pode existir sozinho, sendo essencialmente
parte de uma relação”.
Alheio aos danos que pode trazer ao psiquismo infantil, o objetivo do
marketing é implantar o quanto antes na criança a necessidade de consumir

Sendo assim, o que pensar sobre a relação de um bebê com um aparelho de
televisão que fala e age, sem estabelecer um contato real com ele? Uma das
primeiras formas de contato da criança com o mundo é a identificação
projetiva, mecanismo psíquico por meio do qual ela projeta aspectos de si
mesma sobre o outro enquanto sente como seus determinados aspectos deste
outro em virtude do estado de fusionamento em que se encontra. Sendo assim,
é fundamental refletir sobre o quê um bebê irá projetar na caixa de uma TV
(sem sua mãe dentro), com uma seqüência de imagens ainda sem sentido ou
valor para ele? E, pior ainda, que aspectos ele tomará do aparelho e da
produção eletrônica como partes de si mesmo?

Se não podemos prever o futuro, olhemos o que já acontece, no presente, com
tantas crianças que nos rodeiam, no cotidiano ou na prática clínica: natural
nos primeiros anos de vida, o narcisismo (amor a si mesmo) e a onipotência
(certeza de poder ser e ter tudo) andam durando além do previsto quando, até
por volta dos seis anos, deveriam ter se convertido na capacidade de se
preocupar com o outro. O que estará estimulando, então, nas crianças, o
prolongamento dessas características? Quem pensou em interesse comercial,
acertou no x da questão que envolve hoje a preocupação com os impactos da
publicidade e de determinados tipos de entretenimento na formação das
crianças. Alheio aos danos que pode trazer ao psiquismo infantil, o objetivo
do marketing é implantar o quanto antes na criança a necessidade de
consumir. Como diz Suzan Linn, doutora em Educação e professora de
Psiquiatria da Escola de Medicina de Harvard, em seu livro Crianças do
consumo – A Infância Roubada, “quando nos referimos a produtos
especificamente projetados para crianças “do berço à universidade” pode ser
o máximo que alguém possa almejar, mas muitos fabricantes buscam lealdade à
marca que dure do berço ao túmulo”.

Na reportagem “A perigosa relação do bebê com a TV”, do Jornal Observatório
da Imprensa – a jornalista Leneide Duarte-Plon destaca um dos trechos do
manifesto assinado pelos cientistas franceses Pierre Delion e Bernard Golse
publicado por este jornal: "Numa época em que se fala muito de ecologia, é
preciso que nos conscientizemos de que proteger nossos filhos do risco de
desenvolver uma forma de dependência em relação à tela luminosa é uma forma
de ecologia do espírito. Por isso, é urgente que nos mobilizemos para a
criação de uma moratória que proíba a existência desses canais, antes que a
ciência possa conhecer melhor a relação da criança pequena com a tela".

Pelo tanto que evoluímos, chega a parecer irreal que tenhamos hoje que nos
revolver em argumentos para impedir que se continue penetrando um terreno
tão frágil e misterioso como a psique de um bebê. E isso sob a proposta,
desculpe, descabida de ampliar-lhe a inteligência e a criatividade como
afirmam alguns argumentos de vendas desses programas para os pequenos.
Nascidos em berço de ouro ou em cestos pobres de palha, as perspectivas
dentro de cada bebê estão intactas nessa fase do broto e não demandam outros
cuidados além dos prescritos pela natureza. Os mais caros entre eles são o
calor do seio materno, o alimento saudável, as vozes amorosas e a mão
protetora que governa seu passo a passo até o contato pleno com a vida real.
Se há tanta preocupação com o desenvolvimento dos bebês, que ela seja
convertida, então, para a melhora social do “berço” que os abrigará ao
nascer. Nada substitui o amor e os efeitos que só ele pode produzir na
construção de um novo indivíduo. Recordando uma vez mais a sabedoria e
prudência de Winnicott: “Ainda temos muito que aprender sobre os primeiros
tempos de uma criança e talvez só as mães possam dizer o que queremos
saber”.
Mais:

Maria Helena Masquetti assina, no Caderno Brasil, a coluna *Consumo &
Direitos*. Edição anterior:

Sapatos de pano contra o vazio de afetos<http://diplo.uol.com.br/2008-06,a2485>
Como na antiga lenda, vieram as pomposas estratégias do marketing, em suas
carruagens douradas de sedução, propondo-se a oferecer às crianças um mundo
de maravilhas e tratando de atirar ao fogo as criações. Mas atenção: há
meios de construir outra infância

Um tapinha não dói em quem se acostumou com a
dor<http://diplo.uol.com.br/2008-05,a2421>
Carinho é gostoso, tapa é ruim. De quantas pesquisas necessitamos para ter
certeza disso? Lembrando Belchior em uma outra música, não precisamos que
nos digam de que lado nasce o sol porque bate lá nosso coração — e a
esperança de um futuro melhor para nossas crianças

Em liquidação, a auto-estima <http://diplo.uol.com.br/2008-03,a2264>
No Dia Mundial dos Direitos do Consumidor, vale notar que as crianças
tornaram-se o público-alvo preferido da publicidade. Ainda em formação, são
bombardeadas com a idéia de que os prazeres se compram — o que prolonga a
imaturidade, acentua frustrações e produz, no futuro, adultos infantilizados

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publicado por animalsapiens às 13:22

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