Para falar de gente, de seres humanos, do bicho humano perfectível, apesar de tudo. Do Animal sapiens, mas a partir de agora do "Homo spiritualis", com sua fé e religiosidade muitas vezes confusa, gerando preconceitos, discriminações.

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Out 11

POR ONDE ANDA A EDUCAÇÃO BRASILEIRA?

 

Paulo R. Santos*

 

Primeiro é necessário distinguir a educação formal da educação geral. A primeira é essa que nos chega pela escola, do pré à pós. Do ensino fundamental ao superior, com o acompanhamento do Estado via Ministério da Educação e Cultura (MEC). É uma educação que tem função política e, de um modo ou outro, atende a interesses privados. Não é uma educação que atenda a singularidades, mas – pelo contrário – é massificadora, adaptativa e tende a criar uma espécie de conformismo.

 

A educação geral é aquela do dia a dia. Aprendemos pela TV, pelas conversas com amigos e colegas de trabalho, pelos livros, pelos filmes, pelas músicas, pela observação dos acontecimentos, pelas tradições familiares, pela religião e costumes, regionalismos, pela vivência e experiência, pela sucessão de tentativas e erros etc.

 

As duas deveriam se completar e não se opor, mas não é essa a realidade. A educação formal é, via de regra, anacrônica, descontextualizada, fora dos interesses dos alunos, muitas vezes dissociada da realidade vivida lá fora, na sociedade e na família, com conteúdos estratificados, separados em gavetas de conhecimentos, sem um contexto sistêmico, como se o mundo real fosse todo organizado em armários e não uma mistura simultânea de tudo.

 

Essa realidade faz da escola um lugar pouco atrativo para os jovens. A escola é apresentada como um pré-requisito para o sucesso profissional e a visibilidade social, mas não como uma necessidade para realização pessoal, interior, de formação do caráter e da inteligência, mostrando que o uso do intelecto, na pior das hipóteses, ajuda a administrar melhor a vida, qualquer que ela seja. A educação brasileira ainda é, queiramos ou não, uma educação voltada para o mercado, sendo ela mesma, parte do mercado.

 

Numa sociedade em crise sistêmica, a educação de boa qualidade entra para a lista dos itens de sobrevivência. Saber lidar com os altos e baixos, com as frustrações da vida, o despertamento e desenvolvimento do senso (auto)crítico, conhecer os próprios limites e potencialidades, reconhecer-se no 'outro' e respeitá-lo, viver a diferença, aprender a lidar com os reveses, com os próprios impulsos de agressividade e medo. Tudo isso e muito mais deveria constar dos conteúdos curriculares em disciplinas adequadas, com prioridade para aquelas do chamado campo das ciências humanas.

 

Como isso raramente acontece, as escolas tornam-se ambientes de confinamento. As Universidades formam-se no modelo castrense, semelhantes a acampamentos militares, com hierarquia e tudo, compondo um ambiente que - como escreveu Max Weber - burocratiza o saber. O legado das gerações passadas e das civilizações que se foram perdem importância e significado, deixando a melancólica impressão de que estamos andando em círculos e reinventando a roda, permanentemente.

 

* sociólogo e professor.

 

(Sugestão para leitura complementar): http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/-a-tv-anda-ensinando-o-que

publicado por animalsapiens às 13:28

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