Para falar de gente, de seres humanos, do bicho humano perfectível, apesar de tudo. Do Animal sapiens, mas a partir de agora do "Homo spiritualis", com sua fé e religiosidade muitas vezes confusa, gerando preconceitos, discriminações.

30
Set 11

http://www.youtube.com/watch?v=jACccaTogxE

 

A fala está transcrita abaixo:

MURAR O MEDO Mia Couto

 

O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem, os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambientes que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura, do meu território. O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura, algo me sugeria o seguinte: que há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas. No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional: os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência do país, e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes junto à nossa porta, os ditos terroristas são governantes respeitáveis e Karl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência. O preço dessa narrativa de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial foram colocados e conservados no Poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história. A mais grave herança dessa longa intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos. A Guerra-Fria esfriou mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo, a Oriente e a Ocidente. Para responder às novas entidades demoníacas não bastam os seculares meios de governação. Precisamos de investimento divino, precisamos de intervenção de poderes que estão para além da força humana. O que era ideologia passou a ser crença, o que era política tornou-se religião, o que era religião passou a ser estratégia de poder. Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho começaria pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e do outro lado, aprendemos a chamar de “eles”. Aos adversários políticos e militares, juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade é imprevisível. Vivemos – como cidadãos e como espécie – em permanente limiar de emergência. Como em qualquer estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. Todas estas restrições servem para que não sejam feitas perguntas incomodas como estas: porque motivo a crise financeira não atingiu a indústria de armamento? Porque motivo se gastou, apenas o ano passado, um trilhão e meio de dólares com armamento militar? Porque razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia, são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadaffi? Porque motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça? Se queremos resolver (e não apenas discutir) a segurança mundial – teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século 21, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo. Mencionarei ainda outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi ou será vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que sobre uma grande parte de nosso planeta pesa uma condenação antecipada pelo fato simples de serem mulheres. A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome, e como militares sem farda deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e de discutir razões. As questões de ética são esquecidas porque está provada a barbaridade dos outros. E porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética e nem de legalidade. É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A chamada Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente, morreram mais chineses construindo a Muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns dos trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora de quanto o medo nos pode aprisionar. Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos. Mas não há hoje no mundo, muro que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós do sul e do norte, do ocidente e do oriente. Eduardo Galeano escreveu sobre o medo global: “Os que trabalham têm medo de perder o trabalho. Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho. Quando não têm medo da fome, têm medo da comida. Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras. E, se calhar, acrescento agora eu, há quem tenha medo que o medo acabe.

publicado por animalsapiens às 11:09

29
Set 11


¿Al rescate de qué?


Leo en los periódicos que Brasil, China, Rusia e India ayudarán a Europa a salir de la crisis. Mi memoria se pasea por los míseros slums de Bombay y Calcuta, deambulo de nuevo por esa geografía oscura y sórdida y no puedo por menos que preguntarme dónde amasará la India esa ayuda para socorrer a un viejo continente cuyo “crecimiento” se ha desacelerado. 

El pánico de la crisis invita a operaciones cuanto menos extrañas. El temor va calando todo, permea incluso la memoria hasta hacernos olvidar que este sistema estaba llamado a lo que ahora padece: a una profunda crisis capaz de provocar su propio y radical cuestionamiento. Ese pánico, esas constantes soflamas salvíficas de los economistas y políticos, empujan a pensar que hemos de implicarnos en el rescate de una civilización abocada a su fin. Evito la palabra fracaso en tanto en cuanto seguramente fue preciso haber transitado el desierto de la depredación y la explotación, de la notable ausencia de valores superiores, para poder reorientar nuestros pasos. De enrolarnos ahora en el empeño al que se nos convoca, habremos de observar previamente qué es lo que en definitiva se trata de salvar. No podremos olvidar que para que nazca una nueva civilización basada en los valores de la cooperación y el compartir, la anterior, asentada en los principios del materialismo y el sálvese quien pueda, deberá ir decayendo. 

Poco afectan los números rojos de la Bolsa a una vida que nunca se detiene. El dulce de los higos cuelga de las mismas ramas, los últimos tomates cargados de jugo, las enormes calabazas que colmarán los pucheros del cercano invierno, colorean las mismas huertas en mi aldea… No sé nada de economía, pero cada amanecer puedo observar a mi alrededor que la naturaleza sigue pujando, que los árboles no han dejado de dar sus frutos y la tierra su grano. Contemplo que lo que se hunde es un sistema, no la vida en la que se asienta, no los resortes de la subsistencia. Llega el momento de los interrogantes grandes y profundos, no el de correr a producir no importa qué, ni a costa de qué, sin embargo muy pocas fuerzas políticas y sociales se avezan a cuestionar “en estos duros tiempos de crisis” la propia naturaleza de una civilización de por sí insostenible. 

Ya no saben de dónde “rascar” fondos para salvar lo insalvable. La palabra “rescate” inunda los noticiarios de estos días, pero necesariamente habremos de dudar sobre el objeto de ese rescate. A la larga es un modelo social y económico caduco y sin esperanza alguna lo que se invita a reflotar. Pretenden hacernos partícipes de una macro operación de salvamento de una civilización que no compartimos. Se echa en falta un interrogante más generalizado del modelo y del objeto de producción, de nuestra forma en definitiva de ver el mundo y las relaciones. Solidaridad humana sí, pero para arrimar el hombro al empeño colectivo que se propone, tiene que haber un mínimo cuestionamiento de las bases del sistema voraz e individualista imperante, del consumo exacerbado, del ocio desnortado, del desarrollismo sin alma… 

Ceda ya el brillo del espejismo en cualquiera de sus múltiples, flamantes y engañosas formas. No existe gloria alguna a golpe de “visa”. Debe saltar por algún lado esa ecuación diabólica de “a más consumo más progreso y bienestar”. Debemos olvidar ese fatal principio, pregonado por tantos millones y millones de pantallas, de que la felicidad depende de lo que compramos. Faltan otros tantos monitores que comiencen a cantar que la felicidad está en realidad dentro de nosotros/as y depende de nuestros pensamientos. La cruzada por la reactivación del consumo generalizado siempre nos resultará ajena. Elevemos la calidad de nuestros pensamientos para poder realmente cambiar el mundo; reactivemos nuestro vínculo con el latir de la vida, con lo sencillo, lo pequeño y lo hermoso, no con lo depredador, sofisticado, insostenible, costoso...

Mientras que no se pene la especulación, la economía fraude de enriquecimiento a golpe de teclado sin haber facilitado ningún bien a la sociedad; mientras que las grandes empresas y bancos campen a sus anchas, sin el control necesario..., no se nos aliste frente a ninguna crisis. Pero ahí no queda el condicionado, mientras que no se cuestione la megaciudad alejada de la naturaleza, sus leyes, su belleza, sus ritmos…, como primera fuente de desequilibrio humano, no nos podremos sumar a su cruzada. Mientras no se nos invite tanto a comprar y más comprar, sino a coger con fuerza la azada, a amasar nuestro pan, a agitar nuestros árboles…; mientras que su propuesta no incluya una invitación a una vida más natural, sensata, coherente, armoniosa, comunitaria…, difícilmente nos podremos sentir partícipes del desafío colectivo que por doquier se nos propone. 

Sumarse a la reactivación de la economía y su mercado implica identificación con su filosofía, con los productos y servicios con los que trasiega, sin embargo no ocurre así en muchos casos. Hay mucha producción de “bienes” y servicios que no se aviene con nuestros principios e ideales. ¿Y si la moda ya en el vestir, ya en el ver, el leer, comer..., con toda su inherente dependencia, nos empieza a resultar ajena y nos hacemos más los dueños de nosotros mismos y de nuestros destinos? ¿Y si en lugar de reactivar una economía sin futuro, reactivamos la vida en el campo, la vida más humana, más colaboradora, más cercana…? ¿Y si reactivamos nuestros propios potenciales para cultivarnos, para crecer y disfrutar sin tanta y tan sojuzgante dependencia de la industria del ocio? ¿Y si reactivamos la bici, la chimenea, las aldeas, los campos, las huertas sin química, el calor humano, el gozo de la amistad, la ternura de la existencia...? 

La crisis marca límites, finales de recorrido no estaciones de “rescate” o de servicios. La crisis es por encima de todo una urgida invitación a comenzar a pensar diferente, por fin en clave colectiva, en clave de tierra, de amor por cuanto late... No es tanto un sistema decrépito y depredador lo que nos resistimos a rescatar, sino más bien una conciencia humana egoísta e irresponsable que deseamos ver superada, una nueva conciencia comprometida con nosotros mismos y con cuanto nos rodea, una conciencia más solidaria, más generosa..., la que deseamos ver poco a poco instaurada. Por lo tanto, antes de reactivar nada, alcancemos mínimos acuerdos, por el bien de todos, de toda la vida que palpita. Alcancemos consensos de futuro también por el bien de las generaciones que gateando ya se acercan, de quienes de seguro sí querrán gozar, sin explotarlo y diezmarlo, de este bendito y maravilloso jardín por nombre tierra.

Koldo Aldai
www.artegoxo.org

publicado por animalsapiens às 11:52

28
Set 11

Tempos estranhos. Os animais se humanizam (ou são humanizados) e os seres humanos se animalizam, no pior sentido da palavra. Perde-se a capacidade do diálogo, as palavras são esquecidas, os sentimentos não têm nomes, as pessoas são coisificadas, as distâncias aumentam, os afetos se enfraquecem. Futuro incerto para uma sociedade em crise.

publicado por animalsapiens às 11:22

27
Set 11

Campanha de plebiscito sobre divisão do Pará ainda não começou na TV, mas já tem 'guerra' de jingles na internet

A campanha do plebiscito sobre a divisão do Pará começou no último dia 13, mas as propagandas na TV e no rádio só serão veiculadas a partir do dia 11 de novembro, um mês antes da votação que decidirá se o estado será desmembrado em três partes. Enquanto a série de inserções não invade as emissoras, a "guerra de jingles" já pode ser vista na internet.

São dezenas de vídeos publicados no Youtube, a favor e contra a criação dos estados de Tapajós e Carajás. Se aprovada a divisão no plebiscito, o Pará continuará existindo, mas com um território bem menor.

Com um ritmo que lembra as músicas da Banda Calypso, cujos integrantes são do estado, o jingle "Juntos pelo Pará" pede que os eleitores votem pela não divisão do território.

"Quem ama não separa, vou lhe falar / Sou uma só família, de um só lugar / Eu sou de um país que se chama Pará", canta a intérprete no início da música.

"Não, não deixe o meu Pará na mão / Não deixe a onda te levar / Eu sei que muito se tem que fazer / Mas não vale nada separar", diz o refrão.

'Voto não, quero não, digo não para essa tal divisão', diz refrão do jingle.

Outro internauta preferiu fazer uma paródia da música "Minha mulher não deixa, não", do grupo Aviões do Forró.

"Voto não, quero não, digo não para essa tal divisão. Voto não, quero não", diz o refrão.

Outro tema de campanha é o "Não separa, não":

"Só de pensar em separar o meu Pará, nem pensar, isso lá é bom. Quem ama fica junto. Não separa, não. Me orgulho de ser da família paraense. Problema todo mundo tem, mas é melhor resolver junto".

 

Se aqueles que são contra o desmembramento não perderam tempo em fazer campanha na internet, os paraenses que são a favor não ficaram para trás.

O jingle que defende o estado de Carajás apela para o argumento de que a divisão vai desenvolver e valorizar a região.

"Novo estado, nova visão, em Carajás, no coração / Novo estado pra gente é melhor", diz a letra.

Tapajós também tem sua campanha, mas ao som de xote:

"Me desculpem conterrâneos, Tapajós vamos criar".

"Não queremos mais ser quintal, nem tratados como filhos bastardos deixados de lado por aí. Cansamos de ser iludidos e ter nosso solo invadido, sem forças para reagir. Vamos criar bem alto, independência ao norte", diz a letra de outro jingle.

Jingle criado pelo marketeiro Duda Mendonça também é a favor da divisão.

 

http://br.noticias.yahoo.com/campanha-plebiscito-divis%C3%A3o-par%C3%A1-ainda-come%C3%A7ou-tv-mas-114013525.html

...............................................

 

Comentário:

 

- Não é difícil entender que a intenção primária desse plebiscito é a de dividir um estado com complexidades enormes e interesses diversos que vão da matança de ativistas, ambientalistas, aos interesses de controle de madeireiros e grandes empresas que influem sobre decisões políticas no Pará.

 

 

publicado por animalsapiens às 11:39
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26
Set 11




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publicado por animalsapiens às 11:49

25
Set 11

Sai a Comissão da verdade, mutilada, para preservar a impunidade.

publicado por animalsapiens às 11:20

24
Set 11

23 Setembro 2011

A jovem

Num programa televisivo da nossa terra: a jovem, muito jovem, lê um discurso que lhe disseram para ler sobre literatura. Presentes, adultos com ar grave e aferidor, fora crianças organizadas com o rigor das fitas métricas. Tudo porque uma organização ofereceu livros ao nosso país. A terminar, alguém diz que "ler engrandece o homem". Exactamente, o homem.


http://www.oficinadesociologia.blogspot.com

 

(*Carlos Serra é sociólogo e professor em Maputo, Moçambique.)

publicado por animalsapiens às 11:58

23
Set 11

Série Tete em fotografia (39) - Chifunde

Prosseguindo esta série fotográfica sobre Tete, da autoria do jurista e ambientalista Carlos Serra Jr, agora com registos do distrito de Chifunde, baseados no dia-a-dia com pessoas e coisas. Se quiser ampliar a imagem, clique sobre ela com o lado esquerdo do rato.
(continua)


Read more: http://www.oficinadesociologia.blogspot.com/#ixzz1Ym07qjKo

publicado por animalsapiens às 12:16

22
Set 11

 

Que me desculpem os desesperados, mas solidão é fundamental para viver.

Sem ela ...não me ouço, não ouso, não me fortaleço.

Sem ela me diluo, me disperso, me espelho nos outros, me esqueço.

Não penso solto, não mato dragões, não acalanto a criança apavorada em

mim, não aquieto meus pavores, meu medo de ser só.

 

Sem ela sairei por aí, com olhos inquietos, caçando afeto, aceitando

migalhas, confundindo estar cercada por pessoas, com ter amigos.

Sem ela me manterei aturdida, ocupada, agendada só para driblar o

tempo e não ter que me fazer companhia.

 

Sem ela trairei meus desejos, rirei sem achar graça, endossarei idéias

tolas só para não ter que me recolher e

ouvir meus lamentos, meus sonhos adiados, meus dentes rangendo.

Sem ela, e não por causa dela, trocarei beijos tristes e acordarei

vazia em leitos áridos.

 

Sem ela sairei de casa todos os dias e me afastarei de mim, me

desconhecerei, me perderei.

Solidão é o lugar onde encontro a mim mesma, de onde observo um jardim

secreto e por onde acesso o templo em mim.

Medo? Sim. Até entender que o monstro mora lá fora e o herói mora aqui

dentro.

 

Encarar a solidão é coisa do herói em nós, transformá-la em quietude é

coisa do sábio que podemos ser.

Num mundo superlotado, onde tudo é efêmero, voraz e veloz, a solidão

pode ser oásis e não deserto.

Num mundo tão estressado, imediatista, insatisfeito, a solidão pode ser

resgate e não desacerto.

 

Num mundo tão leviano, vulgar, que julga pelas aparências e endeusa

espertalhões,

turbinados, bossais, a solidão pode ser proteção e não contágio.

Num mundo obcecado por juventude, sucesso, consumo, a solidão pode ser

liberdade e não fracasso.

 

Solidão é exercício, visitação.

É pausa, contemplação, observação.

É inspiração, conhecimento.

É pouso e também vôo.

É quando a gente inventa um tempo e um lugar para cuidar da alma, da

memória, dos sonhos;

 

quando a gente se retira da multidão e se faz companhia.

Preciso estar em mim para estar com outros.

Ninguém quer ser solitário, solto, desgarrado.

Desde que o homem é homem, ou ainda macaco, buscamos não ficar sozinhos.

 

Agrupamo-nos, protegemo-nos, evoluímos porque éramos um bando, uma

comunidade.

Somos sociáveis, gregários.

Queremos amigos, amores.

Queremos laços, trocas, contato.

Queremos encontros, comunhão, companhia.

 

Queremos abraços, toques, afeto.

Mas, ainda assim, ouso dizer: é preciso aprender a estar só para se

gostar e ser feliz.

O desafio é poder recolher-se para sair expandido.

É fazer luz na alma para conhecer os seus contornos, clarear o caminho

e esquecer o medo da própria sombra.

 

Ouse a solidão e fique em ótima companhia.

 

Hilda Lucas

De: Miscelânea

publicado por animalsapiens às 11:37
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21
Set 11

Os riscos ocultos do crack - www.outraspalavras.net

 

Há um problema no artigo recente em que Dráusio Varela propõe internação compulsória dos dependentes. As cracolândias exigem ação — mas também calma…

Por Antonio Lancetti, do DAR – Desentorpecendo A Razão

Um dos maiores riscos da incidência do crack no cenário nacional é o da interrupção do processo de construção do sistema público de saúde mental brasileiro, tido como exemplar por representantes da Organização Mundial de Saúde, inclusive para países de grande população, como Índia ou China.A lei argentina de saúde mental, recentemente promulgada, é baseada em nossa lei, a 10.216, com a diferença de que no país vizinho a internação compulsória deve ser decidida pela família e por uma equipe multidisciplinar com, pelo menos, a assinatura de um médico e um psicólogo. Aqui, basta a assinatura do médico.
Esse processo de construção de nosso SUS da Saúde Mental chama-se reforma psiquiátrica pelo fato de que, nas últimas décadas, foram fechados vários locais de horror (em torno de 60 mil leitos), onde a simples permanência de alguns dias deixaria qualquer leitor pelo menos mais deprimido do que entrou.O resgate de cada um desses seres humanos exigiu um enorme esforço por parte dos terapeutas. A suspensão dos procedimentos iatrogênicos, como sequestro, maus tratos, tempos e espaços fixos e repetitivos e outras formas de desrespeito aos direitos, não foi suficiente.

Houve necessidade de criar, utilizando todos os saberes existentes (psiquiatria, psicanálise, psicologia social, socioanálise, esquizoanálise, arte, economia solidária, etc.), instituições velozes, criativas, que operam onde as pessoas habitam.

Os chamados CAPS – Centros de Atenção Psicossocial — vão se constituindo em serviços de 24 horas de funcionamento, com internações, integrados a serviços de emergência e moradias terapêuticas onde vivem oito pessoas que saíram de internações de 10 ou 20 anos, mostrando que o hospital psiquiátrico é cada vez mais prescindível.

Além desses serviços, hoje se faz saúde mental nos mais recônditos locais, por meio da parceria de equipes especializadas com médicos de família, enfermeiros e agentes comunitários de saúde, atendendo inclusive casos graves, ajudando na diminuição da internação psiquiátrica, da violência e do consumo de drogas legais e ilegais.

Mas o chamado Movimento da Luta Antimanicomial (que conta com usuários e familiares de usuários) está em uma encruzilhada. Aprendeu a cuidar de casos graves desconstruindo manicômios e atendendo as crises nos bairros, melhorando a reabilitação das pessoas com grave sofrimento psíquico. Agora, com o advento dos dependentes de crack, expostos na paisagem urbana e na mídia, devem enfrentar um clamor pelas internações em clínicas fechadas, primas-irmãs dos hospícios.

As cracolândias, onde qualquer um é aceito, são ao mesmo tempo manicômios a céu aberto, no dizer de Franco Rotelli, um dos principais líderes da Psiquiatria Democrática Italiana**.

Mas transformaremos esses manicômios criando outros manicômios?

As cracolândias são os manicômios pós-modernos e os craqueiros, os loucos do século XXI. E estão aí, nas regiões degradadas das cidades para mostrar nosso fracasso, nossa miséria existencial consumista. O modo como vamos enfrentar a questão expressará nossa sabedoria e ética.

O artigo de Drauzio Varella, da Folha de S.Paulo de 16 de julho, convoca a internação compulsória dos craqueiros e craqueiras e termina perguntando: “Se fosse seu filho, você o deixaria de cobertorzinho nas costas dormindo na sarjeta?”.

Essa pergunta sugere imediatamente a diferenciação de crianças e adultos. Mesmo com famílias que não se importem com o cobertorzinho nas costas, interná-los à força implica a existência de um vínculo que se aproxime ao de pai e mãe. Gerará ódio, ressentimento e futuras rebeliões se forem brutalmente recolhidos e amontoados em grande número ou com metodologias negativas e baseadas exclusivamente na abstinência.

Em segundo lugar, o que o doutor Drauzio talvez não saiba (e acredito que gostaria de saber) é que muitos desses homens, mulheres e crianças estão com graves problemas de saúde e já estão sendo internados em São Paulo (embora o sistema precise ser aperfeiçoado), em hospitais gerais e atendidos em Unidades Básicas de Saúde por equipes de Saúde da Família. Eles não pedem para ser tratados da dependência, mas demandam atendimentos clínicos e, como consequência do vínculo com seus cuidadores, muitos pedem ajuda para abandonar o uso do crack.

Internar ou prender todos os craqueiros é tão ideológico como pensar que eles vão sair daí pela própria vontade. Ou, dito de outra forma, o problema não é internar – que na prática funciona como uma redução de danos -, mas sim como internar e, principalmente, onde e com que perspectivas.

E o que faremos com instituições fechadas que já estão sendo criadas pelo Brasil afora, especialmente as denominadas comunidades terapêuticas? Como se sabe, as instituições de contenção fundamentadas na abstinência possuem uma tendência à cronificação e algumas usam recursos violentos ou não se adequam às regras sanitárias vigentes.

As instituições que cuidam de crianças e adolescentes usuários de drogas não podem ser de contenção, mas de aceleração e criatividade. Em São Bernardo, por exemplo, há Centros de Atenção 24 horas para adolescentes dependentes de drogas, moradias fundamentadas em propostas pedagógicas de ação: meninos e meninas têm atividades o dia inteiro e à noite, sessões de cinema. Em Vitória, Espírito Santo, o atendimento é feito a partir das equipes de Saúde da Família associadas ao CAPS Álcool e Drogas ou pelo consultório de rua… E há muitos trabalhos interessantes sendo realizados no Brasil.

Nessa hora de desespero, devemos tomar cuidado com os fenômenos que costumo chamar contrafissura ou tentação de cair no erro da guerra às drogas, infiltrados na clínica e no alarmismo infundido na população.

A intervenção nas cracolândias exige ação e calma. Por enquanto no Brasil, a única pesquisa que demonstrou ter êxito significativo, em torno de 70%, foi a realizada pela Unifesp – “O uso de cannabis por dependentes de crack – um exemplo de redução de danos”, Eliseu Labigaline Jr. in Consumo de Drogas Desafios de Perspectivas, de Fábio Mesquita e Sergio Seibel, Ed. Hucitec, 2000 -, livro que leva apresentação de Drauzio Varella. A pesquisa constata mudança de comportamento, como parar de roubar a família, voltar a estudar, trabalhar e, inclusive, parar de usar maconha.

Mas nenhuma estratégia parece ser aplicável como receita única. Calma não significa paralisia, mas enfrentar o problema em sua complexidade de modo a não interromper o processo vitorioso e eficaz da reforma psiquiátrica, mas aprofundá-lo.

Os riscos são muitos e, por isso, é sempre bom lembrar de que o problema das drogas está longe de depender exclusivamente da saúde. O termômetro que avaliará o valor e a ética do processo será a observância ou não dos diretos das pessoas assistidas e, consequentemente, a sua eficácia.


*Psicanalista, autor de Clínica Peripatética, Editora Hucitec.
**Acompanhei os doutores Franco Rotelli e Angelo Righetti em uma visita à cracolândia de São Paulo e a expressão me foi transmitida por Roberto Tykanori, coordenador nacional de saúde mental.

publicado por animalsapiens às 11:51

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