Para falar de gente, de seres humanos, do bicho humano perfectível, apesar de tudo. Do Animal sapiens, mas a partir de agora do "Homo spiritualis", com sua fé e religiosidade muitas vezes confusa, gerando preconceitos, discriminações.

02
Jul 11

SOBRE OS OUTROS ANIMAIS

 

Nesse dia o canário não cantou e o outro cãozinho mostrou-se triste.

 

Certa vez, em entrevista pela tv, o psicanalista Flávio Gikovate comentou que os animais de estimação são os caçulas da família. De fato. Num mundo onde a fragilidade das relações humanas se torna cada vez mais evidente (veja Amor Líquido, de Zygmunt Bauman, Jorge Zahar Ed.), eles – os outros animais – suprem nossas carências de companhia e necessidades de afeto.

 

A vida humana pode ser longa. Às vezes até longa demais, ultrapassando os 100 anos, enquanto que um cão, mesmo saudável, raramente passará dos 15 anos. Como a maioria dos animais do convivio humano, eles têm vida relativamente curta. Podem ter suas existências acompanhadas do nascimento à morte. Para as crianças, em muitos casos, tornam-se as primeiras demonstrações da finitude da existência, levantando questionamentos e dúvidas que os pais não sabem, não podem ou mesmo não querem explicar. Nós, ocidentais, ainda lidamos mal com a morte.

 

Ainda assim, a maioria das pessoas aprecia a companhia dos animais. Podem ser peixinhos de aquário, cães, gatos, pássaros, iguanas, cobras, ... uma imensa variedade possível dentro da biodiversidade terrena. É verdade também que existe um número imenso de pessoas que ainda não desenvolveu sensibilidade para entender as outras formas de vida. Gente que não consegue ver vida numa árvore, numa borboleta ou na própria Terra.

 

A sociedade se fragmenta, se desfaz como tecido velho. O diálogo se faz monólogo ou se acontece, acontece através de monossílabos ou virtualmente. A relação dos humanos com os outros animais se faz por gestos, afagos, olhares; dispensa protocolos ou medos, mesmo quando exige cuidados. Por isso os solitários procuram cada vez mais a companhia dos animais. Hoje, dificilmente um juiz determina o afastamento de pequenos animais nos edifícios de apartamentos ou condomínios. A solidão exige alternativas e tolerâncias, e muitos juristas compreendem essas novas situações na era do isolamento e do medo coletivo.

 

O medo do 'outro', o medo líquido, difuso, sem razão aparente. Medo do 'outro' pela ausência de regras de convivência. Regras que transformem os “outros” em seres previsíveis e razoavelmente confiáveis. Na ausência dessas regras, os outros animais se tornam mais importantes para suprir carências, necessidades e afetos. Por isso, quando morre um “animal de estimação”, morre algo dentro de nós. Por isso os outros animais silenciam. A morte sempre deixa um certo cheiro no ar.

 

publicado por animalsapiens às 22:30

Julho 2011
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