Para falar de gente, de seres humanos, do bicho humano perfectível, apesar de tudo. Do Animal sapiens, mas a partir de agora do "Homo spiritualis", com sua fé e religiosidade muitas vezes confusa, gerando preconceitos, discriminações.

02
Jul 11

Kit 'boas maneiras'

 

Em tempos de kits rejeitados, criticados, discriminados etc., ainda existe um kit indispensável para o bem-viver e conviver, e que anda aparentemente fora de moda, ou pelo menos fora do circuito dos debates sobre temas relevantes. O kit boas maneiras nunca saiu de moda, ao contrário do que se pensa. No passado tinha um nome mais pomposo: etiqueta.

 

Tempos atrás, o filósofo Renato Janine Ribeiro chamou nossa atenção para as boas maneiras como meio e modo de conviver em favor da redução dos conflitos. Aqueles simples 'obrigado', 'com licença', 'por favor' e 'desculpe', ensinados no pré-escolar fazem verdadeiros milagres na convivência humana, cada vez mais estressante. Mas essas 'palavrinhas mágicas' estão, sim, esquecidas, fora de uso por parte da maioria.

 

O resultado é a agressividade que se transforma em violência por um esbarrão qualquer, um erro honesto, um equívoco natural, proveniente do cansaço, da pressa, da pressão, do estresse ou de qualquer outra coisa. Nem mesmo o direito elementar do contraditório, da explicação, do pedido de desculpas existe mais.

 

Estamos perdendo rapidamente a capacidade maior que nos diferencia dos outros animais: a capacidade de falar, de dialogar. Levamos milênios para desenvolver a linguagem articulada e ainda fazemos mal uso dela, apesar dos dispositivos eletrônicos que poderiam, e deveriam, facilitar a interação humana, com a correspondente redução das preocupações e das motivações de conflitos e confrontos.

 

Estamos caminhando aceleradamente para a barbárie, para a descivilização, para a vida antissocial, tornando as cidades - que deveriam ser ambientes de convivência e proteção -, em ambientes de conflitos e rivalidades. A insegurança torna-se habitual e a desconfiança já faz parte do kit dos relacionamentos afetivos, profissionais, familiares e sociais.

 

Intimamente o ser humano sente falta do básico para uma existência razoável: o sentimento de segurança e proteção; os sentimentos de estabilidade e ordem mínimos para que se possa viver sem sofrer demasiadamente, andam ausentes há tempos. Como ensina o sociólogo Zygmunt Bauman, em Tempos líquidos (Jorge Zahar Ed. 2007), tudo está muito fluido, passageiro, instável, volátil.

 

Sem o kit da convivência estamos condenados a autodestruição, seja pelas guerras, pelas doenças, pelo suicídio lento derivado de uma existência tóxica, seja pela morte gradual dos sentimentos mais nobres, dos valores mais caros e custosamente desenvolvidos ao longo dos séculos.

 

publicado por animalsapiens às 22:23

Julho 2011
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