Para falar de gente, de seres humanos, do bicho humano perfectível, apesar de tudo. Do Animal sapiens, mas a partir de agora do "Homo spiritualis", com sua fé e religiosidade muitas vezes confusa, gerando preconceitos, discriminações.

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Set 12

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Razão e Paixão

by Antonio Ozaí da Silva

“Seria preciso, acreditam certos críticos, uma forma impassível, fria e impessoal; para tais gentes, todo o argumento perde o caráter científico sem esse verniz de impassibilidade; em compensação, bastaria afetar imparcialidade, para ter direito a ser proclamado – rigorosamente científico. Pobres almas!... Como seria fácil impingir teorias e conclusões sociológicas, destemperando a linguagem e moldando a forma à hipócrita imparcialidade, exigida pelos críticos de curta vista!... Não; prefiro dizer o que penso, com a paixão que o assunto me inspira; paixão nem sempre é cegueira, nem impede o rigor da lógica”.
Manuel Bonfim
Paris, março de 1903 [1]

Somos humanos, seres que desejam, sonham e se apaixonam. Desde a antiguidade grega, o humano é definido pelo atributo da razão. O homem é um ser racional! Quem ousa duvidar desta assertiva? René Descartes (1596-1650), considerado o fundador da filosofia moderna, erigiu o seu pensamento filosófico sobre uma certeza racional: “Penso, logo existo” (“Cogito, ergo sum”). No século XVIII e XIX, a Razão foi ungida, posta sobre o altar da humanidade e transformada numa nova religião profana, em substituição à superstição e ao obscurantismo.

“O sono da razão produz monstros”, escreveu Francisco Goya (1746-1828). A Deusa Razão erigiu-se redentora da humanidade e luz que ilumina o seu caminhar sempre em direção ao progresso. A afirmação da Razão, em dueto com a ideia do progresso inexorável da humanidade, foi importante num contexto em que se questionava o poder feudal e tudo o que ele representa. O culto à Razão é o tributo do projeto burguês à modernidade.

Contudo, havia vozes discordantes, como a de Jean-Jacques Rousseau. Ele reconhece a importância dos sentimentos e emoções. Rousseau desconfia das promessas do progresso. [2] Ele não faz apologia da Razão, nem a coloca num plano prioritário em relação ao sensível. A dimensão intelectual racional é importante, mas está vinculada à condição humana que também é emocional e afetiva. Paixão e Razão não estão separados por muros intransponíveis, mas coabitam no mesmo ser. Somos seres racionais e passionais.

O despertar da razão não libertou o ser humano dos seus fantasmas, nem o fez superar as crendices. Os monstros continuam a assombrar o mundo dos vivos! A Razão gerou outras monstruosidades no século XX, o século das guerras mundiais, da barbárie nazifascista, do Big Brother imaginado por George Orwell na obra 1984, do barbarismo das bombas atômicas lançadas pelos EUA sobre Hiroshima e Nagasaki, etc. A Razão foi instrumentalizada e, paradoxalmente, alimentou a irracionalidade. Por outro lado, as religiões profanas – ideologias – engendraram formas de fanatismos tão obscurantistas quanto aqueles que os iluministas combatiam no século XVIII. Não esqueçamos que a barbárie é praticada com racionalidade. Eram pessoas racionais, muitos deles com títulos acadêmicos, que projetaram, por exemplo, a máquina da morte nos tempos sombrios da Alemanha hitlerista. Como escreve Rouanet:

“Depois de Marx e Freud, não podemos mais aceitar a idéia de uma razão soberana, livre de condicionamentos materiais e psíquicos. Depois de Weber, não há como ignorar a diferença entre uma razão substantiva, capaz de pensar fins e valores, e uma razão instrumental, cuja competência se esgota no ajustamento de meios a fins. Depois de Adorno, não é possível escamotear o lado repressivo da razão, a serviço de uma astúcia imemorial, de um projeto imemorial de dominação da natureza e sobre os homens. Depois de Foucault, não é lícito fechar os olhos ao entrelaçamento do saber e do poder. Precisamos de um racionalismo novo, fundado numa nova razão”. [3]

Rouanet propugna por uma nova razão, que reconheça os próprios limites e seja capaz da crítica e autocrítica; que a razão louca seja substituída pela razão sábia. Assim, ele busca resgatar a Razão iluminista, para que se complete o trabalho de secularização. Sábia ou louca, a Razão permanece segregada, como uma característica especial e definidora do que é o ser humano. Este, porém, é uma totalidade que incorpora o racional e a paixão. Onde está a tal da essência humana tão apregoada pelos visionários do futuro? Talvez Jean-Jacques Rousseau, Marques de Sade e outros autores, possam contribuir para a percepção de que o humano é também paixão, natureza e irracionalidade. A barbárie, lamento insistir, também é humana. O humanismo cândido, liberal ou marxista, tem um ideal de ser humano que só existe enquanto abstração racionalizada. Parece-me que a Razão deve ser orientada pela paixão e vice-versa, pois elas constituem o mesmo ser que pensa e sente!


[1] BONFIM, Manuel. A América Latina. In: SANTIAGO, Silviano. (Org.) Intérpretes do Brasil. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 2000, p. 631.

[2] Ver ROUSSEAU, Jean-Jacques (1971). Discours sur les Sciences et les Arts. Paris: Flammarion, entre outras obras do autor.

[3] ROUANET, Sergio Paulo. As razoes do iluminismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 12.

Antonio Ozaí da Silva | 29/09/2012 em 23:10 | Categorias: reflexões do quotidiano | URL: http://wp.me/pDZ7T-wf

 

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publicado por animalsapiens às 12:05

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