Para falar de gente, de seres humanos, do bicho humano perfectível, apesar de tudo. Do Animal sapiens, mas a partir de agora do "Homo spiritualis", com sua fé e religiosidade muitas vezes confusa, gerando preconceitos, discriminações.

06
Set 12

 

 

'A linguagem das pedras nos corações dos homens' - Com a qualidade jornalística  Via Fanzine

 HOME | ZINESFERA| BLOG ZINE| EDITORIAL| ESPORTES| ENTREVISTAS| ITAÚNA| J.A. FONSECA| PEPE MUSIC| UFOVIA| AEROVIA| ASTROVIA

 

 

Quilombo do Rei Ambrósio

 

Resistência negra:

Um reino africano no Centro de Minas?

No início do século XVIII, surgiu mais ou menos na região centro-oeste da então

Capitania de Minas Gerais, uma confederação de quilombos que, no conjunto,

passou a ser conhecida como Quilombo do Rei Ambrósio, ou do Campo Grande.

 

Por Paulo Roberto Santos*

De Divinópolis-MG

Para Via Fanzine

06/09/2012

 

 

O povoado de Catumba, famoso reduto da cultura negra no Centro Oeste de Minas Gerais ainda guarda

restos de construções feitas pelos escravos. Seriam vestígios do grande Quilombo do Rei Ambrósio?

Leia também:

Descoberta arte rupestre nos Açores

Mais descobertas relevantes nos Açores

Quem descobriu os Açores, afinal?

Os Açores há dois mil anos

Descoberta uma importante xancra em Portugal

 

Heróis fora da história


Existem muitas lacunas e distorções na historiografia brasileira. Há excesso de heróis e escassez de povo, de gente simples, daqueles que participaram efetivamente da construção desse país, nem que seja como vítimas das atrocidades praticadas pelos eventuais e momentâneos donos do poder.

 

Só recentemente dois heróis foram acrescentados ao panteão brasileiro, para representar as três raças que compõem nosso povo. Além do branco Tiradentes, já temos o indígena da resistência guarani, Sepé Tiaraju, e o negro quilombola Zumbi de Palmares. Mas ainda falta muito para uma história menos incompleta.

 

No início do século XVIII, começou a surgir mais ou menos na região centro-oeste da então Capitania de Minas Gerais, uma confederação de quilombos que, no conjunto, passou a ser conhecida como Quilombo do Rei Ambrósio, ou do Campo Grande.

 

Seu perímetro exato é desconhecido, mas há indícios que ia do Rio das Mortes (perto de São João Del Rei), passando por onde hoje é Itaguara (às margens da BR-381, MG-SP), em direção a Abaeté, seguindo para Ibiá, Campo Belo e com sede mais duradoura onde hoje fica a cidade de Cristais.

 

Quilombo do Rei Ambrósio

 

Nesse complexo conjunto de aldeias confederadas viviam e conviviam os quilombolas (negros escravos fugidos), indígenas de várias etnias, brancos pobres, garimpeiros, comerciantes falidos, perseguidos de todos os tipos, formando uma população heterogênea e fixa de vários milhares de homens, mulheres, crianças, idosos. Faziam comércio com os tropeiros, garimpavam e trocavam o outro e pedras por armas e munições, sal, tecidos, charque e tudo o mais que precisassem, vivendo de forma autônoma por meio de agricultura de subsistência, com o eventual excedente sendo também objeto de troca.

 

Claro que a formação de um reino dessa natureza bem no centro de uma das principais fontes de riqueza da Corte portuguesa não interessava. Por isso, sucessivos ataques de tropas reinóis e de mercenários ocorreram, sendo vencidas pelos quilombolas. O interesse da Corte pelo Sertão da Farinha Podre (atual Triângulo Mineiro) era grande, pelas possibilidades de riquezas, trânsito para regiões mais interioranas e controle das terras de Goiás. O Triângulo pertencia a Goiás naqueles tempos, e por isso havia uma motivação também de política expansionista, além de controle sobre os territórios das minas.

 

Para se chegar aos propósitos do governador da Capitania das Gerais e da Corte, era preciso eliminar o quilombo do Rei Ambrósio e anexar à região do Triângulo. Com isso, as batalhas ocorridas em regiões mais centrais, próximas a Formiga, Itapecerica (então Vila do Tamanduá), Campo Belo e Cristais, por exemplo, eram registradas pelo então responsável por essas notas, Coronel Inácio Correia Pamplona (um dos principais delatores da Conjuração Mineira), como tendo ocorrido mais além, perto da região do sertão da Farinha Podre.

 

 

Mapa no Arquivo Nacional mostra detalhes do Quilombo do Rei Ambrósio, no interior de Minas.

Leia também:

Descoberta arte rupestre nos Açores

Mais descobertas relevantes nos Açores

Quem descobriu os Açores, afinal?

Os Açores há dois mil anos

Descoberta uma importante xancra em Portugal

 

Abrangência da resistência negra

 

Os primeiros redutos quilombolas, formados a partir da Guerra dos Emboabas (1708-09), deram origem a essa grande confederação nos moldes dos reinos africanos, com um dos líderes, Ambrósio, tendo dado seu nome ao conjunto. O fim do quilombo se deu por volta de 1760, quando o bandeirante pitanguiense Bartolomeu Bueno do Prado, partiu com cerca de quatro mil homens bem armados (pelos padrões da época: armas de fogo e brancas, lanças, arco e flecha).

 

Num desses enfrentamentos quatro mil pares de orelhas negras foram postas em tonéis com salmoura, para serem entregues em Vila Rica, em troca do respectivo pagamento por cada morto. O quilombo resistiu até seu fim, seguido da dispersão, morte ou aprisionamento dos sobreviventes.

 

De qualquer forma, tais eventos não se perdem, mesmo quando são intencionalmente esquecidos pelos políticos, governantes ou historiadores. São muitas as lacunas, é verdade, pois os dados e informações são escassos. Boa parte dos documentos foi levada para São Paulo e para Portugal, ou simplesmente destruída, pelo que se sabe. Mas a tradição oral permaneceu e as histórias e estórias seguem seu curso, na visão de cada interpretador.

 

 

Restos de antigas construções podem ser vistos em Catumba.

Leia também:

Descoberta arte rupestre nos Açores

Mais descobertas relevantes nos Açores

Quem descobriu os Açores, afinal?

Os Açores há dois mil anos

Descoberta uma importante xancra em Portugal

 

Traços herdados de tempos trágicos

 

Muitos consideram o mineiro um tipo arredio e desconfiado, muitas vezes confundindo esse traço herdado de uma longa história de lutas, como timidez.

 

É provável que, na linha de raciocínio do psicólogo suíço Jung, esses séculos de lutas contra as arbitrariedades e mentiras oficiais tenham formado um arquétipo que o mineiro carrega consigo desde o berço.

 

Formou-se um tipo negociador e conciliador, que procura evitar o confronto, pois está disposto a ir até o fim se este acontecer. Resultado dos muitos reveses acontecidos no passado.

 

O século XVIII na Capitania das Gerais foi um século especialmente trágico. Começou com a Guerra dos Emboadas, seguida pela revolta de Felipe dos Santos, as campanhas militares contra quilombolas e indígenas, exterminando os goitacás, abaetés, candidés, tamaraícas, caiapós e tantas outras etnias, seja pela espada ou pela doença trazida pelos brancos.

 

O século terminou com a delação, prisão, tortura e morte ou exílio para os envolvidos com a Conjuração Mineira, também chamada Inconfidência Mineira (1788-89).

 

Somos desestimulados a conhecer nossa história e nosso passado; nossas origens. Um povo sem consciência histórica é um povo sem referências ou conhecimentos do por que somos como somos e onde, como e por que precisamos mudar em alguma coisa. Sem conhecimento do passado, não nos situamos no presente e assim, fica difícil planejar ou vislumbrar o futuro.

 

O reino africano que existiu no Centro-oeste de Minas Gerais no século XVIII - equivalente ou talvez maior que o de Palmares -, levanta uma série de questões: porque se tenta apagar a história? Por que se torce os acontecimentos? Por que se omitem informações valiosas para as gerações mais novas? A quem interessa manter o povo na ignorância de suas próprias origens?

 

* Paulo Roberto Santos é professor e sociólogo, seu blog é http://animalsapiens.blogs.sapo.pt/.

 

-Fotos: Charles Aquino / Itaúna em Décadas e Arquivo Nacional.

 

Tópicos relacionados:

Descoberta arte rupestre nos Açores

Mais descobertas relevantes nos Açores

Quem descobriu os Açores, afinal?

Os Açores há dois mil anos

Descoberta uma importante xancra em Portugal

 

- Extras:

   Vídeo - entrevista com o professor Félix Rodrigues (RTP/Portugal).

   Açores: encontradas sepulturas de 2 mil anos (TVI/Portugal).

 

- Outros tópicos relacionados:  

   Tesouro é achado em local de batalha dos cruzados

   Nas supostas ruínas de Natividade da Serra C. P. Gomar

   Especulações sobre a Ruína de Natividade - Por C. P. Gomar

   A antiguidade dos registros rupestres do Brasil - Por J.A. Fonseca

   Cueva de los Tayos: a verdadeira caverna do tesouro - Por Yuri Leveratto

   Você sabe o que é Arqueologia? - Por Paulo R. Santos

   Fonte Magna - a herança dos sumérios ao Novo Mundo

   Brasil Central: pés e círculos impressos na rocha são alguns vestígios

   Cerâmicas précolombianas: descoberta arqueológica em Itaúna-MG

   Escócia: descoberto túmulo que refaz a história

   J.A. Fonseca registra mais um muro de pedra em Itaúna

   Antigos muros de pedras no interior de Minas Gerais

   Estranhos signos na arte rupestre do Brasil

   Questões não respondidas do Brasil Antigo - Parte 1

   Questões não respondidas do Brasil Antigo - Parte 2

   Fonseca visita os Muros da Mata da Onça VÍDEO

  As inexplicáveis 'construções' de Paraúna (GO)

   Pedra do Ingá: a tese de Baraldi e a conclusão desse autor

  Visite o portal oficial de Gabriele Baraldi

   Visite o portal oficial  de J.A. Fonseca

 

- Produção: Pepe Chaves.

© Copyright 2004-2012, Pepe Arte Viva Ltda.

 

 

Voltar para

ARQUEOLOvia

 

 

 

 

 

 

A TV QUE CRESCE COMO VOCÊ

 

inconfidente&confiável

 

 HOME | ZINESFERA| BLOG ZINE| EDITORIAL| ESPORTES| ENTREVISTAS| ITAÚNA| J.A. FONSECA| PEPE MUSIC| UFOVIA| AEROVIA| ASTROVIA

© Copyright 2004-2012, Pepe Arte Viva Ltda.
publicado por animalsapiens às 21:23

Setembro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
12
14

17
19
20

24
27
29



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

mais sobre mim
pesquisar
 
links
blogs SAPO