Para falar de gente, de seres humanos, do bicho humano perfectível, apesar de tudo. Do Animal sapiens, mas a partir de agora do "Homo spiritualis", com sua fé e religiosidade muitas vezes confusa, gerando preconceitos, discriminações.

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Jul 11

Antigos e Novos Impérios 

"Vi, deitadas em suas mortalhas de pedra ou de areia, as cidades famosas da antigüidade: Cartago, em brancos promontórios, as cidades gregas da Sicília, os arrabaldes de Roma, com os aquedutos partidos e os túmulos abertos, as necrópoles que dormem um sono de vinte séculos, debaixo das cinzas do Vesúvio. Vi os últimos vestígios das cidades longínquas, outrora formigueiros humanos, hoje ruínas desertas, que o sol do Oriente calcina com suas carícias ardentes.

Evoquei as multidões que se agitaram e viveram nesses lugares: vi-as desfilar, diante do meu pensamento, com as paixões que as consumiram, com seus ódios, seus amores e suas ambições desvanecidas, com seus triunfos e reveses – fumaças dissipadas pelo sopro dos tempos. Vi os soberanos, chefes de impérios, tiranos ou heróis, cujos nomes foram celebrados pelos fastos da História, mas que o futuro esquecerá.

Passavam como sombras efêmeras, como espectros truanescos que a glória embriaga uma hora, e que o túmulo chama, recebe e devora. E disse comigo mesmo: Eis em que se transformam os grandes povos, as capitais gigantes – algumas pedras amontoadas, colinas silenciosas, sepulturas sombreadas por mirrados vegetais, em cujos ramos o vento da noite murmura suas queixas."

(DENIS, Léon. Depois da morte, 18. ed. Rio de Janeiro: FEB, Introdução.)

 

 

 

Esta impressionante descrição feita por Léon Denis acerca da sucessão dos séculos com suas civilizações, retrata muito bem os tempos atuais. Governantes igualmente arrogantes, países em nada diferentes daqueles impérios sanguinários do passado apesar da polidez diplomática, cujos registros nossas ingênuas crianças estudam nas aulas de História, sem perceberem a estupidez do halo heróico dado aos impérios guerreiros do passado com seus tiranos e falsos heróis.

A prisão emblemática de Saddam Husseim ecoa pelo mundo qual vitória definitiva do Bem contra o Mal. O rebanho humano, manipulado e manietado pelas grandes corporações da informação, crê – momentaneamente – que a paz vai finalmente reinar no planeta. Não percebe que a violência está dentro de cada um. Que a paz igualmente deve começar em cada um e não de cima para baixo, por decretos ou como conseqüência de preconceitos, discriminações ou perseguições a povos ou grupos sociais.

O terrorismo, visto como atitude extrema de radicais de qualquer matiz, não deixará de acontecer pelo mundo. O terrorismo de estado está cada vez mais presente e causa verdadeiras catástrofes sociais através da extorsão legalizada que inviabiliza a realização dos pequenos sonhos individuais. O mundo cada vez mais se parece com aquela prisão a céu aberto antevista pelos filósofos. Democracia, liberdade e justiça são palavras cada vez mais desprovidas de sentido, pois aplicam-se a interesses e conveniências de momento.

Nunca a desfaçatez e as mentiras consentidas foram tão populares. Mentir não é errado quando se visa um fim útil, dizem alguns governantes. Ou seja, os fins justificam os meios. O que se vê pelo mundo é um novo holocausto, um holocausto moral, onde cada vez mais diminuem as possibilidades de fuga do atual sistema opressivo e repressor. Afinal, remendo novo em tecido velho só aumenta o buraco.

A influência dos Estados Unidos sobre o mundo, em especial a política internacional adotada após o atentado de 11 de setembro de 2001, sinaliza o surgimento de uma nova "guerra fria", um novo anti-semitismo ou, pelo menos, a criação de forte animosidade entre ocidentais e muçulmanos, tendo os EUA à frente como xerife do planeta.

A vida perdoa os simples mas não os ingênuos. Estes pagarão um alto preço pela ignorância escolhida como meio de vida. A alienação conduz à vulnerabilidade diante das constantes manipulações políticas, permitindo amplo espaço de manobra para os espertalhões e para os grandes e pequenos tiranos.

Conta-se que certo rei provocou os sábios de seu reino para que criassem uma frase que se aplicasse a todos os momentos e circunstâncias, a todos os lugares e a todas as épocas. Depois de muito refletir, os sábios disseram: "também isso passará". De fato, como bem lembra Léon Denis, os impérios de ontem e de hoje não são eternos. Cairão por si mesmos. Seja pelo gigantismo causado pela própria expansão, seja pelas fragilidades engendradas pelo misto de individualismo e megalomania de uns ou de todos. Parece que a auto-implosão é questão de tempo.

A humanidade sofre com a atual transição. Percebe-se que a atual civilização, decrépita e enferrujada, não tem superestrutura moral para se sustentar, por isso apela para a violência, num claro retrocesso histórico e plena implantação da barbárie.

A substituição do tecnocentrismo por um novo antropocentrismo talvez seja a saída mais próxima para se evitar catástrofes sociais ainda mais graves. A dor e os sofrimentos coletivos potencializam as mudanças estruturais que já se delineiam, apesar do crescimento da intolerância e do recrudescimento do espírito da inquisição, dos fundamentalismos e da cultura do consumo que não trazem felicidade nem paz duradoura.

Paulo S.

publicado por animalsapiens às 12:59
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